96 TEARS, DA SÉRIE CRÍTICAS PESSOAIS
96 Tears é o nome do primeiro disco de Question Mark and The Mysterians. É também o nome da música hit da banda, se é que dá pra considerar que uma banda obscura dos anos 60 formada por mexicanos com a mesma cara teve algum hit. De qualquer forma, eles conquistaram alguma moral no circuito de garagem e influenciaram um monte de gente boa, e continuam influenciando.
A primeira vez que ouvi falar da música, se não me falha a memória, foi através de um texto do Lester Bangs em que ele dizia como os Stooges eram legais porque não se levavam a sério. Por algum motivo ele citava 96 Tears com admiração. Olhando para os caras do Question Mark and The Mysterians, tenho a impressão de que eles decidiram formar a banda só para que a vizinhança conseguisse diferenciá-los, como se fosse uma gangue de mexicanos soltos em Michigan com todo mundo confundindo um com o outro. Então alguém disse “Hey, formem uma banda”, e eles responderam “A gente não sabe tocar muito bem” e o cara “Pelo menos vocês vão ter identidade”. Então ficou algo como, “o da guitarra”, “o da bateria”, “o do vocal”, “o do baixo” e “o do órgão”.
A música é simples de tudo. Tem uma batidinha rápida e um vocal meio blues gritado, bem garageiro mesmo. O ingrediente especial é o órgãozinho cafajeste que dá cadência à música. É repetitivo, mas ideal para os 3 minutos de canção. A letra é sobre relacionamento. Na verdade é sobre vingança. O cara sofreu e sabe até o número de lágrimas que chorou, e só vai ficar satisfeito quando a vagabunda (sim, antes era o amor de sua vida, agora o ponto de vista é completamente diferente) derrubar as malditas 96 lágrimas do título.
Então ele começa dizendo que um coração tem muitas lágrimas pra chorar, e explica toda a situação: ela está no topo agora, e ainda ri dele depois de tê-lo deixado (realmente é uma vagabunda!). Mas ele avisa que: 1) vai voltar, 2) vai comer ela novamente, e 3) quando o sol nascer tudo vai mudar de figura e será ela quem vai chorar.
Ele ainda gosta dela, mas gosta mais ainda de vê-la sofrer por tê-lo humilhado. Não importa se ele também vai ser infeliz nesse jogo, o que importa é que ela saíra disso tudo completamente arrasada e usada. Um capacho para limpar o pé e ser jogado fora. No entanto tem um problema: ele promete que ela vai chorar essas 96 lágrimas, diz que vai vê-la chorando dia e noite, escutá-la aos prantos, mas tudo não passa de um desejo que ele não sabe se realmente vai conseguir atingir. Provavelmente não, ele apenas vai mastigar essa vingança em sua imaginação e morrer com ela engasgada na garganta, sem poder cuspi-la.
Eu vejo canções desse tipo como o espelho exato da mesquinhez que atinge qualquer ser humano em momentos críticos. É como uma seqüência emblemática de Memórias do Subsolo, de Dostoievski, onde o cara sempre dá passagem para um outro na rua. Isso tira seu sono até o dia em que ele finalmente se sente vingado por não sair do caminho e trombar com seu oponente, mesmo que esse nem tenha percebido o choque. Se ele tivesse matado o cara, ou o personagem da música tivesse dado um tiro na garota, a coisa toda seria muito mais grave, mas mais nobre também. Somos mesquinhos, vis e, ainda bem, covardes, coisa que nos impede de transformar nossas pequenas vinganças em grandes conseqüências. É bem saudável ouvir 96 Tears e imaginá-la chorando, mesmo que na realidade ela não derrube uma mísera lágrima, afinal a vida também é feita de pequenas vinganças.
Alê Duarte, 31, é traíra e montou o http://hajaparalelo.blogspot.com, de onde tira alguns textos pra colocar aqui. E vice-versa
CARTILHA PARA 2010
Anote aí. Para 2010, queremos nos classificar no sufoco. Vamos ignorar que as Eliminatórias Sul-Americanas são uma baba. Que classifiquemos para a Copa do Mundo da África do Sul só na última partida, jogando em casa, depois de uma vitória suada de 2 x 1 contra a Venezuela, com direito a gol duvidoso ou flagrantemente impedido.
O melhor que pode acontecer é sairmos daqui do Brasil desacreditados. Todo mundo, povo e imprensa criticando os selecionados. Deixemos aqui o veterano goleador ou o meia experiente que sabe cadenciar o jogo como ninguém. Que o técnico ainda ignore três, quatro jogadores que são unanimidades em seus clubes europeus.
Que o time titular seja superior aos reservas, sem subestimá-los. Quem ficar no banco deve se esforçar sempre, mas não deve pleitear vaga na equipe principal. Que esperem por sua chance, que a mereçam, caso alguém se machuque ou não corresponda dentro de campo. Mas que aguardem sentados, obedecendo à hierarquia e aos comandos do “professor”, como eles mesmos gostam de chamar o treinador.
Por falar em treinador, que ele seja um ser enérgico e disciplinador. Não precisa ter lançado livros de como montar uma equipe vencedora, ou como construir uma família feliz em 10 etapas. Deve ser vibrante, que tire o máximo de cada jogador. Entre o erudito e o motivador, ficamos com o segundo. Que seus pupilos olhem para a beirada do gramado num momento difícil da partida e encontrem nele o motivo para se empenharem à enésima potência.
Não queremos show de bola. Todos sabem que Copa do Mundo é uma competição acirrada, equilibrada. Não é à toa que lá estão reunidas as principais nações, com seus melhores jogadores. Se a estrela consegue parar a bola embaixo da nuca ou do umbigo, muito que bem. Mas que reserve este jogada para os comerciais de seus patrocinadores vitalícios. Não precisamos de focas e macacos malabaristas. Queremos atletas na mais plena condição física.
Sim, atletas. Isso significa dizer que será rejeitado qualquer jogador com Índice de Massa Corpórea (IMC) acima de 25. Não importa seu histórico dentro da seleção. Devemos respeitar, sobretudo, o que a balança ergométrica nos revela. Jogadores que sofreram contusões recentemente ou acima de 32 anos devem ser analisados de perto e coma máxima atenção. Se não são titulares em seus clubes, é bem provável que não mereçam o colete na seleção brasileira.
Não levaremos amuletos humanos para a Copa. Senhores com mais de 70 anos, sem mais nenhuma função técnica devem ficar
Líder. Também deve haver um dentro de campo. Alguém que faça o papel de pai chato, que pegue no pé, que dê bronca nos novatos irresponsáveis e lembre aos mais velhos que conquistas passadas não garantem vitórias futuras. E que determinem, desde já, a volta do quarto compartilhado. Não precisam rezar juntos nem dormir na mesma cama. Mas é lado a lado, dividindo inseguranças e incentivos, que se forma uma equipe unida.
A receita é essa. É possível que ela sucumba por diversos fatores. Do outro lado do campo sempre haverá uma outra seleção menos ou mais competitiva. Tem seleção que deseja só fazer um gol na Copa, tem outra que almeja conquistar a primeira vitória na história. Não importa o motivo. Todas lá estão por algum objetivo. E cada um deve, dentro de campo, lutar pelo seu.
O importante é que cada partida pareça a última da vida de nossa seleção. Se perdermos, não aceitaremos a derrota. Mas existem formas diferentes de reagir. Não existe essa história de morrer
A vitória sempre será mais importante do que a competição. Nem o fair play é capaz de mudar esta mentalidade. Mas sabemos que o triunfo não é eterno, muito menos irreversível. Assim, tão importante quanto à conquista, está o desejo de um povo que espera quatro anos para ser representado com honra dentro de campo. Definitivamente, não desejamos ir ao aeroporto insultar nossos jogadores. Só queremos luta do começo ao fim. Se perdermos, a lágrima é coletiva; se vencermos, a festa é nacional.
PS: esta cartilha pode ser seguida para as Olimpíadas de Pequim, mas, como ontem Ronaldinho Gáucho foi anunciado entre os convocados, a regra do IMC já foi quebrada. Mau presságio...
Fabio Chiorino, 26, é jornalista, juventino e escreve no Haja Saco às terças-feiras
A FANTÁSTICA HISTÓRIA DE JADEMAR OU A GUILHOTINA LITERÁRIA
Jademar era impotente e por isso ia ao puteiro todo final de semana. Descia a Augusta a pé, entrava no Blue Night e era recebido com a deferência de um convidado VIP. Todas as meninas de lá já sabiam o que ele queria: subia ao quarto, se despia e deitava na cama. Então a puta (podia ser qualquer uma, ele não tinha preferência) montava em seu pau murcho e inerte e se esfregava nele até gozar. Se ela não gozasse, ele não pagava. Era um acordo. Depois ele descia e ficava um tempão no bar tomando uísque nacional cowboy e conversando com qualquer um que quisesse ouvir que São Paulo de madrugada era uma cidade cheia de “luzes, putas e filhos da puta”.
Era muito comum o dia amanhecer e as putas terem que acordar Jademar, que dormia sem cerimônias nos sofás de couro vermelho espalhados pelo salão. Às vezes ele ficava por lá mesmo, dormindo em um dos quartos. Quando despertava, dava uma grana a mais pro estabelecimento e ia embora. Ninguém perguntava de onde vinha ou para onde ia. Não interessava. Sabiam que no final de semana seguinte ele estaria lá novamente.
Certa vez, depois de seu habitual programa, Jademar abriu sua mochila e retirou de dentro dela um livro fino.
“Celeste, está vendo este livro?”.
“O que foi, Jademar, vai ler pra mim agora? Ou quer que eu leia pra você?”.
“Não seja estúpida. Este livro narra a história de um sujeito que foi emasculado por um cachorro quando era criança. O garoto é atacado por um cão feroz quando está tomando banho no vestiário da escola, depois de uma partida de futebol. O cachorro arranca o pau dele. Ele é operado, segue sua vida, mas sem o pênis”.
“Que horror, por que você está me contando essas coisas?”.
“Você não entende, não é? Este sujeito do livro tem um motivo muito mais digno do que eu pra não poder trepar. Ele tem um motivo respeitável, uma razão que eu posso compreender. Uma guilhotina o atingiu diretamente no centro de sua virilidade. Ele não é obrigado a conviver todos os dias com a prova física de sua incapacidade”.
“O que você está querendo dizer?”.
“Quero me castrar, Celeste”.
A prostituta ainda teve tempo de reparar nos nomes do livro e do autor – Os filhotes, de Mario Vargas Llosa – antes de empalidecer com a declaração de Jademar. Protestou, disse que aquilo seria uma loucura. Jademar nem ouviu, tão absorto estava com a idéia de arrancar de si mesmo o testemunho de seu maior fracasso como homem. No final, vendo que seus argumentos de nada valiam, Celeste apenas pediu que ele não cometesse a idiotice de fazer aquela atrocidade dentro da boate.
Na semana seguinte, Jademar estava com tudo preparado. Organizou todos os mínimos detalhes com a obstinação dos fanáticos. Tomou alguns analgésicos, afiou seu facão de cozinha e ligou para o número de emergência dizendo que sofrera um terrível acidente e precisava de ajuda para ir ao hospital. Deitou sobre um lençol branco recém-lavado e lambuzou todo o pau de xilocaina. Com a mão direita firmemente agarrada ao cabo de madeira do facão, teve que desferir três golpes contra seu flácido órgão genital antes de extirpá-lo completamente do resto do corpo.
Quando o resgate chegou, Jademar estava inconsciente e havia perdido muito sangue – o lençol tornara-se vermelho. Os enfermeiros rapidamente levaram-no dali. Estavam acostumados com as situações mais inusitadas. O que os espantou, na verdade, foi o caminho até o pronto-socorro: enquanto a sirene rasgava a noite, uma porção de cães alucinados corria latindo atrás da ambulância.
Mauricio Duarte dos Santos, 26, é jornalista e escreve no Haja Saco às segunda-feiras
CÉREBRO DE FÉRIAS
Ela está sempre em busca da felicidade. Por isso, ignora o inevitável e se abraça ao questionável. A experiência não condiz com que se é hoje.
Passado para ela é um belo imaginário, que reúne todos os momentos bons da vida, mesclando com o que ela corre atrás hoje, reeditando o capítulo supérfluo do sorriso amarelo.
Ela está lá, está aqui, está acolá, mas, não sei por que, parece que nunca está em lugar algum. Sua presença é tão superficial quanto seu falso moralismo abastecido de pó e luzes no cabelo. Seu brilho me incomoda. É irreal. Como pode alguém ser tão feliz?
Enquanto as mães choram e os mendigos imploram, seu salto atravessa a calçada cantando e parece querer ensinar música. A batida constante só é interrompida quando a torção no pé dá a pratada final, sendo vista pelo movimento da rua, que nem liga para este problema. O caso por aqui é mais sério e ela pode se levantar sozinha.
Esqueça, já passou. O balançar dos fios de cabelo mostra que nada aconteceu, isso é passado. Não. Passado é lugar de coisas boas, isso vai para o arquivo morto.
A intensidade dos fatos, as desgraças, os momentos bons e ruins, aqueles indiferentes, a vida... Nada importa. A busca pela felicidade dos contos de fada parece seduzi-la e não há nada que possa detê-la.
O mundo falso e egoísta ao qual é filha não a abala. Vai ao shopping e acaba com todo esse lenga-lenga comprando um belo de um casaco de pele de esquilo turco.
Parece que nada a atinge. Das duas uma: Ou ela não viveu, ou criou uma armadura muito rígida contra seus medos e arrependimentos. Todo mundo tem um ponto fraco, pode acreditar.
Ela tem cérebro de férias. Só com recordações felizes.
Tirar foto é fácil, quero ver quem se retrata.
Renê Castro é estudante do último ano de jornalismo nas horas vagas e assessor de imprensa, por opção anti-romancista, no restante do dia.
A PIOR RAVE DO MUNDO
Parintins, situada a 370 km de Manaus, que está situada a 2.698 km de Congonhas, que está situado a 17 km da minha casa, pode ser considerada uma cidade distante. E talvez seu isolamento geográfico explique por que as raves na ilha do Baixo Amazonas sejam tão inexplicáveis. Junte-se a isso a popularização da música eletrônica, a banalização do ecstasy e um punhado de mau gosto de seus participantes.
Parintins protagonizou, pela 43º vez, o Festival Folclórico dos bois Caprichoso (azul) e Garantido (vermelho). Deu azul. Há dias cobrindo o festival pela rádio em que trabalho e cansado de abordar questões ligadas ao mundo bovino, decidi encarar uma balada diferente. Fui alertado ainda de tarde: ‘Vai porque só tem gente descolada, beautiful people, mesmo’. Pegadinha, claro.
Já na porta, ao lado dos tapumes que cercavam o pátio da igreja onde acontecia a rave, um forró tomava conta da rua enlameada. Como era de graça, o risca-faca concentrava um mix: caixeiros viajantes, turistas pobres, índios, marujos, caboclos e botos cor-de-rosa roçavam-se em meio a um odor pestilento de urina e esgoto.
Mas passar pelo cartão de visitas não era garantia de coisa alguma. Na porta do curral raver, um porteiro pouco eloqüente e de trejeitos afeminados fazia o hostess: “Sou o mánage aqui! Aqui é só Vipe, VIPE!” Como a rádio onde eu trabalho cobria o evento, entrei no VIPE.
Fiquei pouco tempo, o suficiente para me impressionar muito. Gostaria, portanto, de dividir com vocês algumas de minhas visões do inferno, tipo por tipo:
O raver experiente – velho, tatuado e dançante, requebrava e mostrava que estava ali apenas “para ensinar”
O travesti enganador de bêbados (o famoso “cai quem quer”) – desacostumado a evento medianamente mais civilizado, lavava a latinha de cerveja na fonte límpida instalada ali. De saia, sandálias enormes e pés sujos, media todos os homens dos pés à cabeça e fazia comentários jocosos, do tipo “oi delícia, vamos lá atrás da igreja?”
O ex-pit boy – hoje gordo e com as tatuagens borradas pelo tempo, estava sempre disposto a arrumar confusão. Furava a fila mesmo sem querer comprar nada. Como ninguém se manifestava, começou a dançar de forma violenta na pista. Caiu, machucou o braço e teve de ir embora
A putinha do trem – a rave não era um trem, claro, mas essa incorpora em qualquer ambiente
O curumim GO GOBOY – encontrado apenas nas florestas, exibe o corpo malhado e a dança sensual, arrancando suspiros – ainda que meça 1,20
A velha doidona – aos 43 anos, faz questão de gritar e levantar os braços quando dança. Com o detalhe que, em Parintins, a 36 graus, levantar os braços é crime
O frito – bobo por natureza, toma ecstasy em qualquer ocasião. Apesar de a festa estar um lixo, dançou a valer
A modelo desconhecida – magra, bonita, mas com um quê de frustração por estar na Amazônia e não em Nova York, exibia os 42 kg saracoteando pela pista
O feitor da fazenda – deslocado e não descolado, andava de chapéu olhando aquela meninada alucinada, imaginando como deveria estar bom o forró lá fora
Marc Tawil, 34, é um exibicionista e escreve no Haja Saco às sextas-feiras
JUSTO AQUELE AMOR
Justo aquele amor
justinho ele
que era parvo, meio tonto
torto pro lado esquerdo
João Bobo, geleia
um saco de areia.
Justo aquele amor
estranho
estrábio
sozinho
nesse céu de planetário
quente
- Cala a boca, escolhe uma estrela, põe o seu nome e me beija.
Pois é, justo esse amor
que me deixava puto
doente
demente
e perigosamente
contente.
Justo aquele amor palhaço
panaca
saco de risada.
Amor barata
pisado
abatido
curtido em chineladas.
Justo aquele amor de perder a hora
tomar pileque
tirar as calças
e pisar em cima.
Justo um amor bem filho da puta.
Justamente aquele amor de inventar desculpas
quebrar a cara
cair na rua
entrar numas
e arranhar os joelhos.
Justo aquele amor de porta de delegacia.
Justinho aquele amor
de sair gritanto
em revoada
feito passarinho.
Um amor de avião desaparecido na floresta.
Um amor tragédia.
Justo esse amor
que valia dois bombons de licor
e um adeus.
Justo esse amor,
que pena,
justo ele,
que injustiça,
acabou.
Gilberto Amendola, 32, é jornalista e escreve no Haja Saco às quintas-feiras
1967
Vaca! Vagabunda! Agora chega, foi a primeira coisa que ele pensou quando a viu beijando outro. Ele nem sabia quem era o cara, nem convidado havia sido. Chegou lá e tomou assim, como quem se apossa de vaga vazia na rua, a sua garota (bem, claro que ela não sabia disso, mas nos sonhos dele era ela. Pelo menos até aquele momento).
Ele pensou como foi possível. Tava tudo combinado. Ele a tinha chamado. Ele tinha feito milhões de galanteios. Já fazia tempo que ele tentava e aqueles olhinhos, ele tinha certeza até ali, eram feitos pra olhar pra ele.
A música continuava rolando. O amigo mais próximo logo percebeu a raiva nos olhos e se aproximou, Meu, ela ficou com outro cara. E ele respondeu dando tiros pelos olhos, Sim, desgraçada, mas agora chega, não vou mais atrás, acabou.
A música era a favorita dela, “You Really Got Hold On Me”, que ele nem gostava tanto, mas que fez questão de comprar o elepê só pra ver ela dançando, só pra ver ela animada. Seus planos também contavam, claro, com todo um largo planejamento que não ocorreu já que era pra ela estar dançando e animada ao lado dele, e não desse...ele procurava adjetivos pejorativos mas poucos conseguiam cobrir a raiva que sentia, no fundo ele sabia que o cara não tinha nada a ver com aquilo, a culpa era dela que deu esperança pra depois arrancar. E sua cabeça imaginava uma bela e sensual ave de rapina que passava voando baixo por ele no colégio todos os dias enfiando suas garras em seu peito e arrancando seu coração fora para jogar na sarjeta mais próxima. Bom, sim, ele era meio exagerado às vezes. Mas doeu. Embora essa dor ele só percebeu um pouco depois, já que antes veio a raiva. Não, raiva era muito boazinha para o que ele sentia. Era ódio mesmo a palavra.
Legal, ele pensou, proporcionei uma noite perfeita pra ela, comprei o disco que ela mais gosta, toquei a música que ela mais ama, servi a melhor bebida e fiquei de garçom por uns quarenta minutos, fiz ela dar belas risadas, abaixei a luz e ainda encontrei um namorado pra menina. Parabéns pra mim, realmente me sai muito bem.
E pra piorar tudo, ela estava estraçalhadoramente linda!
Ele tentava disfarçar, mas era difícil não olhar. Ao mesmo tempo, ele ia se relacionando com os outros convidados, afinal ele tinha pensado em tudo aquilo com meses de antecedência. Esperou os pais viajarem para dar o bailinho. A garagem estava lotada, com amigos, inimigos, gente que ele nunca tinha visto e gente que ele queria ver de novo. O aparente sucesso da festa competia com a conclusiva tragédia pessoal.
Pra ele pouco importava que tudo tivesse saído bem, a casa poderia pegar fogo que ele não estava nem ai, desde que ela colocasse fogo nele. Ele circulava cada vez menos, e bebia cada vez mais rápido. As canções se sucediam na vitrola, os casais iam se formando madrugada adentro, e os primeiros convidados começavam a sair.
Ele foi vendo um a um ir embora e agradecer. Tudo tinha sido um sucesso. Pouco tinha sido um desastre. Mas esse pouco era o que pesava nele. A garagem começou a se esvaziar. Ela foi embora, e ele acompanhou os passos com um sentimento que era difícil definir. As coisas começavam a se misturar e ele a se arrepender de não ter, pelo menos, exposto a sua ira.
Por último sobraram apenas uns três amigos mais próximos, que a principio tinham o forte propósito de acabar com o álcool. A companhia lhe fez bem, já que na frente deles ele poderia se abrir mais. Em um círculo de amigos, poucas meninas na face da Terra haviam sido tão grosseiramente xingadas. Quase tudo de ruim, entre as palavras “Não vou mais dar moral pra essa menina” e “Ela ainda vai se arrepender”, foi desejado para a garota. Além de tudo de ruim, todos também concordaram que ela era a mais bonita, com metros de distância, da festa. E isso só fazia aumentar sua raiva. É, que bosta, ele disse uma última vez.
Já sozinho com a garagem toda suja e muito trabalho a ser realizado no dia seguinte para deixar tudo em ordem, ele pegou a vitrola e a ligou no quarto. No escuro, colocou o disco. “You Really Got Hold On Me”, a partir daquele dia, se tornou a sua canção preferida.
Alê Duarte, 31, é traíra e montou o http://hajaparalelo.blogspot.com, de onde tira alguns textos pra colocar aqui. E vice-versa
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