DESCONTRUINDO O IPHONE
A chegada do iPhone 3G no Brasil causou comoção infinitamente maior a uma visita do papa ou a acampar como um mendigo em busca de um ingresso para o show da Madonna. Os artistas brasileiros se chafurdaram na lama em busca de um telefone grátis a ser distribuído em festas promovidas pela Vivo, Claro, Shopping Iguatemi e Daslu. Até Preta Gil estava lá. Se confundiu, é verdade.
E os descolados do CQC também lá estavam. Por que não? É natural fazer denúncia e humor inteligente, colocar políticos em saia justa e receber os seus brindes eventualmente. Faz parte do jogo contemporâneo, em que entretenimento e jornalismo se misturam cada vez mais. O jabá só ganhou outro nome. Hoje, atende por
Disse ‘telefone’ anteriormente, mas foi um descuido. Telefone é para pobres fora de moda. O iPhone da Apple vai virar sinônimo de produto. Assim como todo mundo fala cotonete e Bombril, em vez
E como as bebidas nas festas do Haja Saco, os aparelhos podem ser adquiridos a preços módicos, que variam de R$
Um questionamento. Como um aparelho tratado como revolucionário pode apresentar uma câmera de 2.0 megapixels? Até aquelas máquinas vendidas no programa da RedeTV têm melhor resolução. O que poderia ser considerado fraqueza trata-se, na realidade,
Um especialista disse na rádio que, em pouco tempo, as pessoas começarão a se assustar com as contas de seus brinquedinhos. A tela é tão sensível ao toque que se torna um vício delicioso passear pelo Google Maps integrado, conferir a previsão
O exibicionismo é a grande isca de qualquer mercado. Todos devem se lembrar das pessoas que paravam no meio do shopping, retiravam um tijolo baiano do bolso e fingiam atender aquilo que mais tarde se chamaria celular. Atire o primeiro fax quem nunca foi atrás de uma inovação tecnológica. A partir de hoje, a vida gira em torno de um monitor de
Fabio Chiorino
ENSAIO
A certa altura, o escritor depara-se com um problema: como escrever especificamente para ela sem que ninguém, além dela própria, perceba que o texto é destinado a ela? O escritor se preocupa, coça a cabeça, mas não se desprega nenhuma solução de seu pensamento. (Seria um pensamento triste? Há quem diga que escritores, como este do qual estamos falando, têm uma propensão quase suicida, ou mesmo fetichista, a pensamentos melancólicos, como se fosse uma espécie de combustível, ou ainda como se enxergassem a vida com um tapa-olho que só mostra o lado ruim das coisas.)
O escritor enche sua quarta caneca de café do dia – o café é uma das bebidas dentre as quais o escritor é dependente. Ele ouve música, pois sempre escreve assim. (Aqui é importante lembrar que o escritor é fascinado pela literatura dentro da literatura, pelo texto dentro do texto, por escrever justamente sobre escrever, o que os lingüistas chamam de metalinguagem, ou textos metalingüísticos. Mais uma informação sobre os hábitos do escritor: a música que ele ouve agora, no repeat, enquanto luta para dizer a ela coisas que ele está tentando dizer já faz um tempo, mas de maneira que somente ela perceba e mais ninguém, chama-se Look At You, de uma banda norte-americana que ele gosta muito, chamada My Morning Jacket. Ele pensa que a música é tão bonita e simples e sente uma certa inveja por não ser nada musical. Ele se ressente porque acredita que a música permite dizer coisas banais com uma força e uma beleza extraordinárias, permite que versos como “Let me... let me follow... let me... let me follow you” ganhem proporções de um lirismo comovente sem parecer patético, nem brega. Mais uma informação: o verso citado é um verso da música que ele está ouvindo num looping contínuo.)
Agora o escritor está inquieto. Quem o conhece, sabe o motivo: ele não está encontrando a dicção adequada para falar, como se as palavras fossem se desmanchando na tela do computador toda vez que ele tenta digitar alguma coisa. Como se fosse impossível formar uma frase antes que elas fatalmente caiam em um despenhadeiro. Ele se debate com seu tema, se frustra cada vez que uma idéia se acende e logo se apaga em sua cabeça. (Como saber que o escritor é um sujeito angustiado e ansioso: ele enche mais uma caneca de café, cada vez com mais açúcar; ele movimenta de maneira frenética os pés, como um pêndulo; apesar de não estar escrevendo, não apóia as costas no encosto da poltrona, ficando, assim, numa posição incômoda e mesmo prejudicial à sua postura, como se fosse incapaz de relaxar ou como se fosse uma autopunição por emperrar na sua difícil empreitada que, lembramos novamente, é escrever algo especificamente para ela, sem que ninguém além dela perceba que é para ela. Uma informação desencontrada: o escritor não acredita em inspiração, e sim em trabalho. Portanto, é capaz de virar a madrugada na frente da tela em branco, mesmo que não saia nada.)
O escritor começa a considerar o tom da ambigüidade. Poderia enveredar por um enredo que faria qualquer mulher se identificar com o texto, mas colocaria ali no meio alguns pormenores mínimos, irrelevâncias para olhos estrangeiros, mas que a fariam imediatamente identificar que é dela que ele está falando, é para ela que está escrevendo. Ele sabe que muita gente vai ler. Contudo, isso não importa. O fundamental é que ele sabe que ela também vai ler, e precisa entender que ela é a motivação daquilo tudo. (Fazendo mais uma digressão no nosso olhar cravado no comportamento do escritor, é importante ressaltar – e o escritor está plenamente de acordo com isso – que escrever é correr riscos. O escritor não é bobo e sabe disso. Afinal, está em seu território. Sabe que fazer algo somente para ela pode ser incorrer num erro. A partir do momento em que ela perceber que ele está falando dela, diretamente para ela, podem acontecer três coisas: 1) ela pode ficar lisonjeada e sentir-se grata e começar a pensar no escritor de uma outra maneira, o que seria muito bom para suas intenções de escritor e melhor ainda para suas intenções como pessoa; 2) ela pode ficar lisonjeada do mesmo jeito mas não mudar nada na percepção dela sobre ele, o que seria ruim para o escritor enquanto pessoa, mas não para o escritor enquanto escritor; 3) ela ficar assustada ou não gostar, e isso seria ruim tanto para a pessoa quanto para o escritor.)
É natural que o escritor, em determinado momento, passe a sentir fome. Mas nessas horas ele torna-se um obstinado e não levanta para comer, pois isso seria uma distração. Apenas enche novamente a caneca de café, que já não está mais muito quente. (Distração é uma coisa muito temida pelo escritor quando está escrevendo, especialmente quando se trata de um caso espinhoso como esse, com todos os obstáculos que existem em tentar escrever algo para ela sem que ninguém além dela perceba que é para ela, e não é só isso, só isso não basta, ela precisa se comover, precisa achar aquilo tudo significativo, precisa entender. Porém, o escritor sabe que não existem milagres, muito menos literários. Voltando às distrações, o escritor as considera perigosas porque elas podem fazer com que um escritor volúvel e autocrítico como ele abandone qualquer tipo de projeto, pois entre a euforia da criação e o tédio que sobrevém depois, a distância é quase nula. Isso significa que uma distração pode fazer um escritor pular o primeiro estágio e ir diretamente para o segundo, largando a coisa inacabada e com grande tendência a nunca retomar, simplesmente por achar que não vale a pena e que tudo não passou de uma empolgação momentânea.)
O escritor desfere um olhar vago para sua estante repleta de livros, sem contar as inúmeras obras espalhadas pelos móveis do quarto, que é o local onde mais gosta de escrever, embora ele mesmo admita que seja muito bagunçado. É comum ele fazer isso, essa procrastinação de seu próprio trabalho – já que isso é uma pausa – diante de todas essas páginas cheias de literatura do mundo todo. (Importante informação sobre o escritor: para quem olha de fora, esse momento pode parecer mais do que um mero instante de reflexão do escritor. Com certeza não é um descanso. É mais um travo, ele continua sem encontrar o modo de começar a narrar sua história. Com uma certa dose de patético, podemos concluir que ele procura ali, naqueles nomes sonoros e imortais das lombadas dos livros, um refúgio, um auxílio. Como se buscasse uma espécie de cumplicidade, pois quem, senão eles, entenderiam esse bloqueio que ele sente na hora de escrever algo somente para ela, mas onde ninguém mais vislumbre que é só para ela além dela mesma? Algo bonito, algo que se saiba mais bonito à medida que se vai conhecendo melhor, gradativamente, algo como ela. Uma informação pessoal e psicológica sobre o escritor: muitas vezes, nosso escritor sente dificuldade em se reconhecer um escritor, principalmente quando está assim, olhando todos esses autores enfileirados, como uma obediente formação militar, numa biblioteca ou numa livraria. Por mais que ele veja seu livro lá no meio, junto com os deles, ainda lhe parece uma irrealidade, como se fosse ele olhando de fora do corpo para outra versão dele mesmo olhando estupefato para os livros. No fundo, pode-se encarar isso como uma fraqueza, mas jamais devemos revelar isso ao escritor.)
Já avançamos madrugada adentro e, apesar de todo o café, o escritor sente sono e cansaço. Está prestes a desistir, sente que hoje não sairá nada, a música continua no repeat, a garrafa de café esvaziou e ele ainda não foi capaz de colocar no papel algo que deixaria claro para ela, mas somente para ela e para mais ninguém, que aquele texto seria destinado aos seus olhos, ao seu sorriso aberto como uma casa aberta, ao movimento de suas mãos, ao seu apego à vida, à sua alegria (que ele admirava tanto por ser um contraponto que tinham), à sua maneira de falar, à sua inteligência radiante (exatamente por isso era tão bom conversar com ela), ao seu humor tão parecido com o dele e aos seus inúmeros pequenos gestos que tanto o atraíam e que ele vinha anotando mentalmente, como uma lista tatuada no cérebro. No entanto, nada. Nem sequer uma linha. (O que ninguém sabe, a não ser nós, observadores privilegiados desse não tão raro momento que é a derrota de um escritor diante do que ele quer escrever, é que ele já havia jogado a toalha. Sabia, com a convicção de quem possui uma coleção particular de pequenos fracassos, que não seria capaz de sair do lugar. Informação acerca da formação do escritor: como todo escritor que se preza, ele não se incomoda com esse tipo de frustração – e nem com muitos outros tipos, na verdade. Sabe que as condições adversas são normais nesse tipo de arte. Isso não quer dizer que ache isso bom. Se pudesse escolher, escolheria o sucesso. Afinal, nosso escritor não é um imbecil.)
O escritor já desligou o computador e está deitado na cama, com as luzes apagadas. Ele está pensando, como sempre. Está pensando que amanhã vai tentar de novo. Mas por que tentar de novo? Porque é preciso, é necessário. E enquanto imagina caminhos possíveis, inícios marcantes, finais surpreendentes, pistas que deve deixar a ela no meio do texto, enquanto pondera sobre todos esses detalhes, um cavalo marinho alado e cintilante segurando um girassol entra pela janela, faz um vôo rasante sobre seus olhos, deposita o girassol em seu travesseiro e começa a brilhar numa intensidade intolerável até tudo desaparecer num clarão incompreensível. (Para quem ainda não percebeu, o escritor pegou no sono e está sonhando. São normais os delírios oníricos depois de um dia fatigante dedicado exclusivamente ao exercício de tentar dizer o indizível. E aí fazemos a mesma pergunta que o escritor se fez: por que continuar tentando? Respondemos o mesmo que ele: porque é preciso. É preciso tentar escrever um texto especificamente para ela sem que ninguém, além dela própria, perceba que o texto é destinado a ela. É preciso que ela se comova, que ela entenda, que daí nasça algo, que se mude a realidade estática das coisas. Porque é disto que a literatura e um escritor se alimentam: das coisas que andam, que se modificam, das coisas improváveis, da matéria delicada dos sonhos, de girassóis e cavalos marinhos alados que brilham.)
Mauricio Duarte dos Santos, 27, é jornalista e escreve no Haja Saco às segunda-feiras
FERNANDÃO, ERA MELHOR SER CEGO
Pensei em uma série de maneiras de formatar este texto. Tinha quase fechado na idéia de escrever uma Carta Aberta ao diretor de Ensaio Sobre a Cegueira, em tom irônico, elogiando o filme. Cogitei até em sugerir aos meninos daqui apenas publicar uma frase, sob o título do filme: “Era melhor ser cego”. Mas, sinceramente, por falta de tempo e arte para algo tão complexo (se quisesse um bom resultado ao menos), preferi ser direto e seco, como num papo de mesa de bar. O filme é uma das piores coisas que já vi nas telas nos últimos tempos.
E olha que eu não gostava já do Fernando Meirelles, então nem me venha com o discurso de eu ter criado expectativas. Na época eu era jovem, e para poucos abri esta opinião, mas já havia achado Cidade de Deus uma droga. Um grande comercial de margarina (“Gordura trans o caralho, agora é trans-free, porra!”), com maneirismos publicitários, situações para “jogar para galera”, um literalismo assustador. O pouco de bom eram alguns achados, creio, feitos do trabalho de Kátia Lund (quase excluída dos créditos e dos louros vindouros da produção) e a belíssima seqüência da morte do Cabeleira.
Depois, com o tempo, até entendi. Cidade de Deus é uma tentativa de ser cinemão, de fazermos aqui o que se quer no mercado lá fora. Entretenimento para assistir comendo pipoca na sala de cinema (eu odeio gente que come pipoca no cinema e, como diz Maurício Duarte, em uma tradução livre minha, “ninguém vai se empanturrar de Yoki com manteiga enquanto o cara joga xadrez com a Morte em O Sétimo Selo”).Mas Cidade é entretenimento apenas mediano, e longe de ser meu tipo de produção cinematográfica. E tanto na estréia de Meirelles no mundo dos longas quanto agora, mais me irrita mesmo a reação histérica da dita crítica especializada.
E, graças em parte a essa crítica (deus, como sou idiota), eu, anti-Cidade de Deus, que me recusei a ver O Jardineiro Fiel, estava no HSBC quarta à noite. Juro, de coração aberto, esperando um bom filme (no mínimo entretenimento, no mínimo cinemão). Histeria da crítica menos a ruindade do Meirelles mais um texto do Saramago (não li o livro, mas gosto do que li dele e o respeito como autor) seria igual a um filme médio, pensei. Ledo engano. O Fernando continua com a mesma mão pesada de sempre. Faz um filme previsível, sem sutilezas, literal. As cenas que acompanham a ponta de uma bengala de cego são constrangedoras. O dito instrumento é o olho do cego, então o espectador é convidado a “enxergar” pela perspectiva do mesmo, a bengala, no caso. Ãh, ãh? Não é uma sacada cinematográfica genial?! Sem contar os trechos nos quais Dany Glover surge, do nada, como narrador, para explicar o filme...
A fotografia é tosca, não há integração entre o lavado branco, sem contraste, e o “fotometrado”. As imagens não formam um discurso em um filme, pensando na superfície, sobre o ato de ver. Há pequenos achados, como a cena de sexo (já bola cantada há no mínimo uns 15 minutos, se não desde o primeiro encontro dos dois, ainda enxergando) entre os personagens de Alice Braga e Mark Ruffalo. A tela explode em branco, com leves toques do corpo dos dois... mas, sim, se sexo é uma explosão de branco, que iguala e aproxima as pessoas mesmo em estados de desespero, Krzysztof Kieslowski já mostrou isso em A Igualdade É Branca (usando melhor artifício, mas de forma semelhante).
Do conteúdo, prefiro nem comentar profundamente. Não li o livro, repito, mas depois do filme perdi a vontade... O homem é o lobo do homem? Já me disseram isso e mostraram de maneiras bem mais sutis e convincentes (aliás, se substituíssem no filme, quem viu vai entender, o “mandem suas mulheres” por um “mandem o menininho órfão besuntado em fezes”, eu ia achar mais interessante). As pessoas abusam do poder, mesmo quando apenas intuem o terem, sem sequer saber como ou para quê? Tá, manda o próximo chavão de auto-ajuda... Aliás, uma amiga definiu o livro como um tratado de auto-ajuda para pessoas com curso superior completo. Se for igual ao filme, sou obrigado a concordar. Até a conclusão (de novo, com narração em off de Glover para o público conseguir entender), na qual se diz que a única personagem que continuou enxergando estava ficando cega, pois todos os outros voltavam a ver, é ridícula. Ela, no fundo, é a única personagem cega, de ponta a ponta no filme...
Para resumir, duas cenas. 1) Os cegos trancados na ala três do sanatório tomam conta da sala de transmissão, que antes enviava mensagens de ordem e ameaças governamentais. Avisam aos demais desgraçados trancafiados no lugar serem agora os responsáveis pela distribuição da comida e a existência de uma taxa a ser paga por quem quiser continuar se alimentando. Ao final da mensagem, Gael Bernal aproveita o microfone e canta I Just Call to Say I Love You, imitando Steve Wonder. 2) Danny Glover se declara a Alice Braga, quer contar a ela sua vontade de permanecer a seu lado, cego mesmo, para sempre. Antes, pergunta se há alguém na sala, se estão sendo observados. Lógico, ninguém responde e, óbvio, logo a câmera revela que todos os outros personagens estão, em silêncio, acompanhando a conversa.
Não ganha um doce de banana quem disser em qual cena a platéia riu alto, sem constrangimento. É para eles que o filme foi feito, não para mim (apesar de Fernando Meirelles ter dito que fez concessões no roteiro para agradar aos investidores... como usaram Lei de Incentivo, eu também me entendo investidor... mas, enfim...). E, nessa hora, a única coisa que passou (sério) na minha cabeça é que, talvez, um dia, alguém regrave Ensaio. Aproveite o trocadilho do título em português, mergulhe na melhor e mais irônica piada do filme todo e faça um musical. Sim, em vez de parecerem um grupo de mortos-vivos, os cegos seriam um corpo de baile, cantando Ray Charles e Wonder. No final, a atriz principal entoaria, pulmão cheio “I can see clearly now…”. Mas aí um chato escreveria em um blog que transformar tragédias em musicais já foi feito antes de uma maneira bem melhor e boa, blá, blá...
Rodrigo Dionisio, que critica a integridade artística alheia, mas só escreveu este texto para divulgar seu novo projeto no Flickr (www.flickr.com/photos/120mm)
AMY-A OU DEIXE-A
Pobre Amy Winehouse. Por mais que não cante, que agrida os fãs, que converse com ratos recém-nascidos, que faça tatuagens horrorosas, que corra seminua durante as enevoadas madrugadas londrinas, que se esconda debaixo do chumaço de cabelo desgrenhado e perca os dentes a cada 15 dias, ninguém a deixa em paz. Todos (ou todas) querem saber de Amy, criticar Amy, idolatrar Amy, ouvir Amy, assistir Amy. Mas nada se compara a mais nova mania mundial sub-30: “ser Amy por um dia”. Sim, por um dia, porque a humanidade ainda possui o senso mínimo de estética.
“A Amy está na mídia toda hora, não tem como não notar aquele estilo todo e, especialmente, a voz dela. Acho o estilo dela muito legal, uma coisa inovadora, mas com cara de antigo. Além disso, adoro pin-ups, que tem tudo a ver com ela! Então para não cair naquelas mesmas fantasias de sempre (havaiana, marinheira, etc) pensei em ir de Amy. Não pela pessoa, mas pelo visual dela”, justifica-se toda a bela estudante de jornalismo Daniela Morás, 20 anos, sem se dar conta da vergonha que sentirá ao rever as fotos da festa à fantasia no futuro.
Aliás, a festa à fantasia é praticamente o único lugar em que se pode ser Amy sem ser confundida com um travesti cubano. E Daniela, acredite, não esteve só: “Além de mim, tinha umas outras nove ou dez garotas vestidas de Amy. Então, sempre quando uma encontrava outra havia um comentário do tipo ‘irmã!’ ou ‘você está igual!’”.
Há quem encare a Amymania de forma séria, indo a salões de beleza, fazendo tatuagens de marinheiro turco e procurando saber os efeitos positivos do crack e da cocaína. Os fabricantes de boneca ainda relutam (como criar uma boneca tão tosca?), embora pensem no assunto. No Facebook, pode-se colocar o rostinho na torre de cabelos e mamães e papais vêem os escândalos com simpatia. Um talento jogado fora? Se Freud não explica, Jean Paul Sartre sim: “O inferno são os outros”.
• Texto preparado para o TCC de especialização em Moda da jornalista Maria Eugênia Thomasini, radicada em Londres
Marc Tawil, 34, é jovem, estiloso e escreve no Haja Saco às sextas-feiras
CARNIÇA
Na primavera,
bem que eu vi,
urubu
beija-flor.
Ô, Rosa
espinho também é flor.
Não se enforque,
nesse Ipê amarelo,
antes do próximo inverno.
Quero-quero
morrer
de amor
pétala por pétala
sem dor.
A gente é mesmo assim:
feito de alma e carniça
poesia e merda.

ARTISTAS
Performance. Intervenção. Taí duas palavras que me dão pavor. Fulano de tal vai fazer uma performance na mostra não sei o que. Sicrano não sei o que vai fazer uma instalação na galeria de tal. Medo. Medo. Medo. As duas palavras soam como desculpa pra trambique. Ai o cara vai lá, senta num ovo até chocá-lo e inventa um conceito todo complicado e humanitário pra justificar a picaretagem. E sempre tem um bando de pseudo-inteligentes que acompanham e dizem ter entendido tudo, ou pelo menos batem umas palmas pra não ficar por fora. E também tem sempre umas gostosinhas toscas pra caralho que acabam caindo nesse papo que não leva a lugar nenhum e acabam dando pros caras. Bom, se for esse o objetivo os tontos não são exatamente eles certo?
Li em algum lugar outro dia que um “artista” deixou um cachorro morrer de fome em uma galeria. Essa era a “obra” dele pra chamar atenção pra alguma merda que acontece no mundo. Talvez a fome, sei lá, não me lembro. Mas distribuir sopinha pros mendigos, medida pratica e que dá resultados, ele não quer. Então tá lá, um cão morrendo de fome e o cara inventa um conceito pra justificar a própria falta de talento. Não sabe fazer música, escrever livro, pintar quadros, produzir filmes. Mata o cachorro e diz qualquer coisa.
Outro, esse é chileno e se chama Marco Evaristti, quer transformar um condenado à morte norte-americano em comida de peixe para chamar a atenção sobre a crueldade que é a pena de morte. O mesmo “artista” também já matou peixes em uma outra exposição, e já fez uma lipoaspiração e produziu almôndegas com a gordura arrancada... sim, elas foram fritas e expostas, e depois ele convidou algumas pessoas para comer com ele...e pasmem, teve quem pagou por elas. Segundo Evaristti essa obra era sobre a obsessão em perder peso e o culto ao corpo. Nota a contradição: o cara faz uma lipo e dá um jeito no corpo pra protestar justamente contra isso. Não faria mais sentido comer até virar um gordo mórbido e sair por ai pelado com um megafone pregando o seu “protesto”?
Ai o visitante chega lá na galeria, vê umas almôndegas feitas de gordura humana, sente nojo e vai pra casa. No dia seguinte ele come almôndegas no almoço porque já esqueceu tudo o que viu pelo fato da chamada “obra de arte” não ter consistência nenhuma. Enquanto isso, ele lê Crime e Castigo e vai pensar pelo resto na vida nos conceitos de culpa e punição.
Esse tipo de praga de artista é muito pior do que qualquer cantor sertanejo, pagodeiro, funkeiro ou qualquer outra coisa que a gente bem criada gosta de esculhambar, porque de alguma forma, essas classes “mais baixas” de arte atendem a algum objetivo, dialoga com alguém de uma maneira mais honesta do que o cara que inventa jogar um saco de laranjas no chão de uma galeria e classificar aquilo um nível acima graças ao conceito que muitas vezes não faz o menor sentido com o que está exposto.
Nessas horas, juro que penso, penso mesmo, em artistas de verdade. Penso no Faulkner escrevendo Enquanto Agonizo em intervalos durante seu trabalho em uma mina de carvão. Em Fernando Pessoa sem um puto e por isso sempre pedindo dinheiro emprestado. Em Van Gogh a vida inteira sem vender um mísero quadro. Em John Coltrane ralando horas por dia, estudando livros de harmonia e ritmos e religiões do mundo tudo pra criar sua música. Em Woody Allen fazendo um filme por ano. Ou seja, artista trabalha, picareta não.
Desabafado tudo isso, só posso dizer que semana que vem coloco aqui uma foto de um cocô dentro de um coco. E ai de quem não entender!
Alê Duarte, 31, é traíra e montou o http://hajaparalelo.blogspot.com, de onde tira alguns textos pra colocar aqui. E vice-versa
ENTRE QUATRO PAREDES (DE UM BANHEIRO PÚBLICO)
O que é
O cantor britânico foi preso pela polícia de Londres, na última sexta-feira, em uma casa-de-banho em Hampstead, flagrado
Talvez seja apenas uma tola ingenuidade minha, mas me custa a acreditar que George esteja mais uma vez disposto a criar um fato que ajude a promover um próximo trabalho. É provável que já seja a intenção dos empresários, gravadoras e demais sanguessugas. Entretanto, dentro da minha lógica, é mais fácil acreditar que o cantor esteja realmente perdido do que propenso a lucrar com um novo escândalo.
“Sofro como um louco. Passo por aflições e humilhações públicas, mas minha carreira parece sempre endireitar-se como um pato de plástico na banheira”. Esta foi a sua primeira declaração após o último ocorrido. O entendimento não se dará a partir de analogias
George Michael pretender lançar uma autobiografia em breve. Com o incremento do último escândalo, é previsível que o livro deva entrar na lista dos mais vendidos. O eventual sucesso renderá novas manchetes, mas não servirá como clínica de reabilitação para o britânico. A explicação para sua conduta talvez esteja no isolamento de um grande astro, processo natural pelo qual passa um artista que continua a ganhar dinheiro, mas não detém mais os holofotes da mídia, carinho e popularidade dos fãs de outrora. Como um estúpido ladrão que volta ao local do crime, George Michael retorna ao único recinto onde se sente seguro. É este esquecimento que o impulsiona a se degradar solitariamente no primeiro banheiro público que aparece pela frente.
Fabio Chiorino, 27, é jornalista, juventino e escreve no Haja Saco às terças-feiras
O BILHETE
Encontrei o bilhete que anexo neste texto na poltrona de um avião, preso na beirada do assento, de maneira que passou despercebido pela limpeza, ou simplesmente a correria das escalas serviu como desculpa para um trabalho mal feito. Estava voltando do Uruguai, aeroporto de Montevideo, onde a aeronave fazia uma escala, vinda de Buenos Aires, para então seguir para São Paulo.A verdade é que agora, depois de ler e reler essas palavras, comemoro com uma alegria estranha e íntima o fato de eu tê-lo encontrado.
Creio que fui o único a ler o bilhete, além de quem o escreveu. E isso é reconfortante. Mas é também uma vaidade. Como se eu, leitor oculto e inesperado, possuísse uma espécie de cumplicidade silenciosa com o escritor. Como seu eu pudesse, de alguma forma, tomar o rumo daquela história inacabada. Há uma certa presunção em todo desejo de privilégio. Porém, esse é um dos prazeres que uma situação inusitada como esta pode proporcionar.
Jamais saberei exatamente do que se trata. O bilhete é curto e não é endereçado a ninguém. Também não é assinado. Num caso como este, a precisão torna-se um luxo desnecessário, quase um descuido. Pode ser uma declaração exaltada de amor, um desabafo de um solitário desesperado ou mesmo um simples exercício literário. E aqui é importante adiantar que meu interesse pelo que veio escrito no bilhete é menos literário do que curiosidade banal. Exatamente por essa razão, vou me abster de fazer qualquer tipo de comentário acerca da qualidade do texto.
O que me fascina é simplesmente passear por entre as linhas e tentar adivinhar quem fez aquilo, qual foi sua motivação. E também imaginar por que veio cair justamente em minhas mãos. Que espécie de mistério, de urdidura do destino risca uma linha no caos? Tão-somente imaginar, como queria seu autor. Depois, num segundo momento, é claro que é sempre bom pensar que realmente exista tal amor. Nem que seja apenas em um bilhete errando cego pelo céu.
“imagine andar por entre um corredor azul de nuvens. imagine repetir um nome no vento até que ele vire pássaro. imagine repousar numa cama de luz. imagine um jardim furiosamente verde de árvores. imagine os pés nus repisando uma areia mais fina que a poeira de que são feitos os sonhos. imagine singrar o mar quando nossos braços são barcos. imagine arder no verão quando tudo explode em cores de manga. imagine a quietude da pedra sob o sol. imagine uma boca só lábios. imagine a boca se abatendo contra a claridade fibrosa do dia. imagine a noite por fim redimindo nossos atos. imagine o silêncio da estrela que apesar de morta continua a luzir. imagine a paz que não nos é concedida. imagine um amor que nada demanda e exige senão amar. imagine.”
Mauricio Duarte dos Santos, 27, é jornalista e escreve no Haja Saco às segunda-feiras
COMO EVITAR O (PRÓXIMO) SPAM AMIGO
Geralmente o problema é geracional. Quem já era adulto quando descobriu as maravilhas do e-mail tem maior chance não só de desconhecer o processo tecnológico do que está fazendo, como também de apresentar as características inocentes e facilmente impressionáveis pelo conteúdo das correntes, dos alertas, das novas leis que ninguém conhece…
Eu chamo esse besteirol que chega na nossa caixa de entrada com as letrinhas “fwd” ou “enc” antes do assunto de “SPAM AMIGO”. Você sabe do que estou falando. É aquele e-mail que, na maioria das vezes, você deleta sem ler, especialmente se vier de alguém que só te envia porcaria. O problema é quando você não pode bloquear essa pessoa, pois ela é, geralmente, sua mãe, tia, prima, amiga da faculdade ou colega de trabalho. E acredite, há muitas versões masculinas desta praga da qual não há fuga definitiva.
Hoje recebi mais um desses, de uma pessoa com quem troquei dois e-mails ontem sobre um curso da escola onde ela trabalha. Como já humilhei 50% das minhas irmãs e até quase perdi uma amiga por reclamar sobre o envio de mentiras deslavadas, é claro que respondi pedindo educadamente que ela me exclua para sempre de suas correspondências.
O texto acabou relativamente bom e pensei em reciclá-lo para a próxima mensagem com grau de fantasia compatível ao da urgência que alardeiam na introdução.
Como eu sou uma santa de bondade infinita, aproveitei para adaptar minha resposta de modo que qualquer um também possa usá-la como e quando quiser.
Como eu sou um docinho de morango, ainda acrescentei respostas-padrão que desmontam as mentiras contadas em cinco das correntes mais populares que rolam por aí. Acredite, todos os fatos abaixo são reais, você pode me citar como a “amiga jornalista” (mas sem meu nome, faça o favor).
Como eu sou um chuchuzinho super fofo, ainda incluí um modelo de bônus para quem não suporta mais qualquer arquivo com a extensão .ppt.
Como eu não sou besta, acabo de me isentar de toda e qualquer responsabilidade pelas conseqüências da sua resposta. Portanto, saboreie com moderação.
INSTRUÇÕES:
- O texto abaixo é longo porque contém seis parágrafos “rotativos”, ou seja, você só usará um por vez, ou pode simplesmente não usar nenhum, caso eles não se encaixem no assunto. Sem os modelos, o texto ainda mantém uma certa lógica.
- O que está em negrito não deve entrar na sua resposta ao/à “correntista” que te atormenta. É só para você não se perder.
- O que está em itálico deve ser preenchido por você de acordo com o e-mail recebido.
- Faça as alterações que quiser, porque não estou nem aí.
RESPOSTA PADRÃO PARA COMBATER O SPAM AMIGO:
Olá [nome da pessoa],
Escrevo só para esclarecer alguns mitos sobre esses e-mails falsos que muita gente espalha por aí, e para pedir que você por favor retire o meu endereço da sua lista de contatos para esse tipo de coisa, daqui pra frente.
[PARTE 1: aqui você mostra as provas de que a história contada no e-mail é estapafúrdia, mas sem precisar dizer que a pessoa acreditou em uma história estapafúrdia. Eis alguns modelos já famosos. Se nenhum modelo servir, pule direto para a PARTE 2]
[MODELO 1: notebook que a Ericsson estaria distribuindo para competir com a Nokia, que também estaria distribuindo notebooks.]
No caso desta mensagem sobre a Ericsson, fiz uma busca breve no Google e vi que Ericsson T18 é um celular, e não um lap top ou notebook. Fora que a URL Ericsson.com é de uma empresa de fora do Brasil, então não sei como essa tal de Anne Swelung, se entender português, vai descobrir o endereço de todos os que participarem dessa farsa para enviar o “lap top” para a casa de cada um em duas semanas. Coitada, deve estar recebendo centenas de e-mails, se é que já não trocou de endereço ou pediu demissão!
Em resumo: o e-mail só contém mentiras! Fora que é pura besteira ficar disseminando esse tipo de coisa.
[Obs: uma variante desta mensagem é qualquer coisa que diga que, se você enviar esse e-mail para X pessoas, vai ajudar a coisa Z a acontecer. É só argumentar que não há como o Instituto Y monitorar para quantas pessoas alguém envia um e-mail – a não ser que você usar Chrome e o Instituto Y for amigo do Google, mas isso é outra história.]
[MODELO 2: shopping centers (no Estado de São Paulo) não pode te cobrar pelo estacionamento se você gastou mais que dez vezes o valor em compras]
Infelizmente, esta lei sobre estacionamento grátis dentro do shopping nunca deve valer em São Paulo. Se você procurar direitinho, vai ver que em algum lugar do Centro-Oeste conseguiram aprovar. Não sei a história em detalhes, mas uma amiga minha jornalista já foi checar e comprovou que aqui em São Paulo já sugeriram esse projeto umas quatro vezes. Sempre é derrubado na Assembléia ou, quando chega no Governador, ele veta. Melhor não repassar, porque vai que algum amigo ou parente seu resolve comprar briga com o segurança para fazer valer seus “direitos” e acaba (literalmente) com a cara na parede?
Em resumo: o e-mail só contém mentiras! Fora que é pura besteira ficar disseminando esse tipo de coisa.
[MODELO 3: uma criadora de cachorros foi despejada e teve que deixar 50 filhotinhos de raça na casa da vizinha, que procura gente para adotá-los desperadamente]
Desculpe se essa mensagem é meio direta e reta, mas já recebi esse mesmo e-mail umas três vezes nos últimos três anos. Duvido que essa situação seja tão corriqueira assim a ponto de as três mensagens serem de três eventos diferentes (obviamente não tenho como comprovar, porque deleto todas assim que chegam). De qualquer maneira, antes de você repassar alguma mensagem desse tipo, inclusive contendo telefones, é sempre melhor ligar para o tal número e ver se a informação é verídica, para o/a pobre coitado/a que usa esse telefone não ser importunado a ponto de cometer suicídio para se safar dos trotes. Sei que às vezes não dá tempo de ligar, então, nesse caso, é melhor não repassar uma informação da qual você não tem certeza, né?
Em resumo: o e-mail só contém mentiras! Fora que é pura besteira ficar disseminando esse tipo de coisa.
[MODELO 4: assaltos dentro do estacionamento do Shopping Iguatemi]
Olha que sorte, esse e-mail do Shopping Iguatemi eu já recebi uma vez antes. E até falei com uma amiga jornalista que recebeu o e-mail e ligou tanto para a assessoria de imprensa do Iguatemi quanto para o telefone que estava na mensagem para fazer uma reportagem. E sabe o que ela descobriu? Esse e-mail é completamente falso!!! Não só o Iguatemi não tem problema com estacionamentos, mas o telefone era na verdade de uma menina que viu a mensagem, repassou igual você fez agora mas, como o telefone foi junto da assinatura automática, acabou virando parte da história falsa, e agora não pára de ligar gente importunando a coitada! É por isso que eu não repasso nada, imagina se isso acontece comigo? Deus me livre!
Em resumo: o e-mail só contém mentiras! Fora que é pura besteira ficar disseminando esse tipo de coisa.
[MODELO 5: crianças de qualquer idade que estão com algum tipo raro de doença e precisam imediatamente de doações]
Olha, acho muito sério ficar encaminhando esse tipo de mensagem. Primeiro porque a foto dessa criança pode até violar artigos do Estatuto da Criança e do Adolescente, pois sua veiculação precisa da autorização dos pais. Segundo porque ninguém sabe se isso é verdade, não é mesmo? Nem de que ano é esse e-mail, se a criança já está curada ou (Deus queira que não!) se ela até já morreu. Divulgar o telefone de gente que você não conhece pra todo mundo na sua lista pode até dar processo, viu? E imagina se não foi alguém que quis magoar outra pessoa, inventando uma história comovente e colocando o celular dela no meio? Você ligou para confirmar direitinho? Fico com medo dessas coisas, sabe?
Em resumo: o e-mail só contém mentiras! Fora que é pura besteira ficar disseminando esse tipo de coisa.
[MODELO EXTRA: Powerpoint de anjinhos, grávidas, cachorrinhos, gatinhos, cachorrinhos e gatinhos, fotos do Sebastião Salgado, fotos de satélite do planeta à noite, versos limitados, Comic Sans, efeitos de transição e outros elementos altamente alérgicos]
Sinceramente, acho que muita gente gosta desse tipo de coisa, mas eu prefiro ficar longe delas. Até porque, já recebi praticamente todos esses arquivos antes (alguns até sei de cor!) e, com o tempo, vejo que eles têm pouco conteúdo e não me ensinam quase nada.
[PARTE 2: aqui você deve ser educado/a, mas deixar claro, abusando do didatismo para provar a chatice do tema, que corrente é spam]
Não é nada pessoal com você, tá? É que eu procuro sempre conscientizar as pessoas que se preocupam com esse tipo de mensagem ou enviam “só para garantir” ou “para ajudar”. Na verdade, o único objetivo prático e realmente concreto de clicar em “encaminhar” e depois escolher todo mundo que já trocou e-mails contigo para receber a mensagem, é que aí você revela o endereço de todos os seus amigos, parentes, colegas de trabalho ou ex-colegas de trabalho para todo mundo (inclusive para os contatos dos seus contatos que encaminharem a mensagem que você acabou de me encaminhar). E sabe quem ganha com isso? As pessoas que vivem de enviar spam, porque assim elas nem precisam comprar listas de e-mails. Quem perde somos todos nós, e a sua caixa de spam não me deixa mentir, não é verdade?
Veja você que, agora, todas as pessoas na sua lista, que não têm nada a ver comigo, agora têm conhecimento do meu e-mail pessoal. E eu tenho o contato deles (e também da lista completa de quem encaminhou o e-mail para você, e assim por diante).
Espero que você não se ofenda com a minha mensagem e possa refletir um pouco sobre quem realmente gostaria de receber esse tipo de e-mail. E, sempre que achar que a mensagem é extremamente necessária, por favor use o recurso BCC, de incluir seus destinatários como cópia oculta, para ninguém mais poder ler os endereços. Ah, e se você puder me excluir de todas essas futuras correspondências, eu agradeço bastante.
Atenciosamente,
[seu nome]
Ana Carolina Moreno pode contar nos dedos das mãos o número de vezes que viu o sol nascer em 26 anos. Mas aposta que você presenciou menos alvoradas. Blog: http://ana.gotya.nl
IDIOTAS PARAOLÍMPICOS
Sempre desconfiei dos idiotas. Ninguém é idiota o suficiente que mereça ser chamado de “idiota completo”. Ou quase. Normalmente, o idiota completo é aquele que acredita que o outro está sendo (ou nasceu) idiota – portanto, já que, psiquicamente, se projeta naquele que julga ser idiota, sofre de uma idiotice ao quadrado.
Na semana passada, cultivando tardes de ócio, dei a sorte de pegar o começo do filme mais inteligente já feito sobre um idiota (que não era idiota), apesar de o protagonista se achar tapado e os coadjuvantes também. (Eram três idiotas a cada duas pessoas em cena.) Forrest Gump (economize meus dedos, vai: http://pt.wikipedia.org/wiki/Forrest_Gump) me fez parar não só por mais de duas horas em frente à TV, mas para também refletir sobre a quantidade de idiotas que temos no mundo. Do lado de cá, digo.
No ano passado, fiz um trabalho em um instituto psiquiátrico em Pirituba. Um projeto jornalístico, que acabou sendo adiado por uma mudança de horário no jornal onde eu trabalhava. Naqueles meses, conheci vários Forrests, uns mais idiotas, outros menos. Todos inteligentíssimos, humorados (bem e mal).
Mesmo se eu fotografasse tudo, filmasse, gravasse em áudio, não conseguiria retratar o cheiro daquele lugar, as falas, os olhares perdidos, os lampejos de genialidade... Claro que se trata de uma viagem muito pessoal, mas tenho certeza de que muitos aqui gostariam de embarcar.
Depois de assistir às idiotices do Forrest, decidi acompanhar outros idiotas, os do esporte. Já tinha me revoltado um pouco pela manhã, quando soube de orelhada que as TVs só passavam os Jogos Paraolímpicos por obrigação de contrato, uma cota (e as emissoras cumprem a mínima) estipulada pelo comitê organizador. Decidi invadir as madrugadas, me atentar aos cadernos de esportes, sites. As Paraolimpíadas ganharam um traço a mais de audiência: eu. Me empolguei, torci como nunca pelos cegos, surdos e mutilados, chorei, ri, me emocionei de verdade, como se as vitórias fossem minhas também.
Piegas? Talvez. Em tempo: as Paraolimpíadas de Pequim acabaram ontem. Os idiotas paraolímpicos terminaram em 9º. Os olímpicos em 23º.
Marc Tawil, 34, é jovem, estiloso e escreve no Haja Saco às sextas-feiras
A VIDA DEPOIS DA VIDA DEPOIS DA VIDA DEPOIS DA VIDA...
Lucas acordou com o escândalo do despertador. Ainda de olhos fechados, tateou o criado-mudo até encontrar o aparelho que gritava. Desligou o dito cujo e aproveitou o silêncio ao seu redor. Mas foi por pouco tempo: "Ué, eu nunca tive um despertador?".
De olhos arregalados, percebeu que, além do despertador, aquele criado-mudo, aquela cama e quarto não eram os seus. “O que eu tomei ontem à noite. Aonde eu vim parar?”, perguntava-se.
Lucas tentou refazer o percurso da noite anterior. Mas por mais que se esforçasse não conseguia sair do lugar. “Eu cheguei do trabalho, assisti um DVD, tomei banho e fui pra cama. Para minha cama”, repetia mentalmente.
O seu mantra cheio de dúvidas foi interrompido por uma loira deslumbrante que, sem bater, foi entrando no quarto. “Amor, o seu café da manhã já está pronto. Você tem uma reunião no banco às 10h. A secretária já ligou...”
Antes que pudesse responder foi surpreendido por um garoto loirinho que entrou correndo no quarto e pulou na cama. “Pai, pai, você precisa ver o que eu fiz...”
Percebendo que havia alguma coisa errada com o seu marido, a loira tirou a criança da cama e avisou. “Seu pai sempre acorda de mau humor, meu anjo”.
Lucas, que até ontem era solteiro, sem filhos e fotógrafo, acordou pai de família e executivo de banco. Automaticamente, vestiu-se com um terno importado, calçou uns sapatos caríssimos e saiu para trabalhar com sua Mercedes. Detalhe: até ontem ele não sabia dirigir.
Sem conseguir encontrar uma explicação convincente, chegou em seu local de trabalho, deu ordens, contou piadas e paquerou a secretária. No fim do dia, voltou para sua casa. Teve uma noite feliz em família e dormiu o sono dos justos.
Na manhã seguinte Lucas acordou em um cubículo escuro com cheiro de ovo podre. Apertado em um colchão, ele viu uma mulher e cinco crianças deitadas ao seu lado. Assustado, tentou refazer o percurso da noite anterior. “Como eu vim parar aqui?”
Dessa vez, Lucas não pode se entregar aos devaneios da manhã passada. A mulher ao seu lado acordou resmungando. “Vai procurar emprego ou ficar bebendo o dia inteiro?” Lucas levantou-se de bate-pronto e quase cortou o pé em uma garrafa de 51 que estava jogada no chão. As cinco crianças começaram a chorar ao mesmo tempo. Ele saiu depressa.
Sem saber por onde começar. Acabou parando em um bar. Lá, o dono parecia ser seu amigo de longa data. Lucas nem precisou pedir, o homem encheu um copo americano de pinga e repetiu: “O de sempre meu velho”.
Confuso entre sua vida de fotógrafo, executivo e desempregado, Lucas foi bebendo. Bebeu tanto que só chegou em casa depois da meia-noite. Quase desmaiado de sono, não ouviu a gritaria da mulher e o choro da criançada. Dormiu o sono dos justos.
Na manhã seguinte, Lucas acordou falando inglês, em uma cama enorme, em plena Casa Branca. “Acho que hoje sou o presidente dos Estados Unidos”. Aparentemente, ele já não se assustava com suas mudanças repentinas de vida. Levantou-se, tomou um belo coffee break, ligou para o presidente Lula e mandou explodir o Irã. Depois de um dia de muitos compromissos, dormiu o sono dos justos.
Na manhã seguinte, Lucas acordou latindo. Sim, ele era um cachorro, um vira-lata simpático e brincalhão. Neste dia, Lucas correu atrás dos carros, perseguiu gatos e comeu restos de um restaurante por quilo. Não fossem as pulgas, essa seria uma vida inesquecível. Mas o sono dos ‘cães justos’ também chegou. O cachorro dormiu pesado.
Na manhã seguinte, Lucas acordou com o sol batendo em suas pétalas vermelhas. Ao se perceber plantado em um jardim monumental desejou nunca mais dormir e nunca mais acordar...

TIRINHAS
A Elisa é tão talentosa quanto é linda. E dá pra notar o quanto eu quero dizer vendo o trabalho dela. Explico: é uma amiga minha que se mudou pra Londres e que depois de ver uns diálogos que inventei teve uma idéia. E me pediu se podia criar uns desenhos pra eles. O resultado, dos três primeiros que ela produziu, é esse que eu publico aqui agora. Esses diálogos já até foram colocados aqui em outro momento, mas o trabalho da Elisa valorizou muito mais o que eu tinha feito. Quem quiser conhecer melhor o que ela é capaz de fazer basta dar uma visitada nesses endereços abaixo.
www.elisasassi.com
http://flickr.com/elisasassi
http://blog.elisasassi.com
Alê Duarte, 31, é traíra e montou o http://hajaparalelo.blogspot.com, de onde tira alguns textos pra colocar aqui. E vice-versa
TEM FESTA
Tem festa que vai todo mundo
Tem festa que nem precisa de DJ
Tem festa que os blogueiros fazem a discotecagem
Tem festa que o ingresso é trocado por fichas de fliper
Tem festa que fica metade dentro, metade fora
Tem festa que os convidados levam copos, gelo e birita
Tem festa que as pessoas anotam seus próprios pedidos
Tem festa que jamais são servidas empadas e saltenhas
Tem festa que o segurança é amigo de todos
Tem festa que nem chuva espanta
Tem festa que camisetas são sorteadas
Tem festa em cobertura na Santa Cecília
Tem festa com fartura de doces dos anos 80
Tem festa que o Oscar é barman
Tem festa que o Marc fica sem camisa
Tem festa que o Giba se lambuza de manga
Tem festa que se inventa uma caipirinha de dadinho
Tem festa que vão gays e simpatizantes
Tem festa que a vizinhança reclama do barulho
Tem festa que os ébrios se esparramam pelo chão
Tem festa que os sóbrios não aproveitam
Tem festa que rende muita fofoca
Tem festa que vai a tia gostosa de um
Tem festa que vai a amiga esquisita de outro
Tem festa que se sabe o paradeiro de todos os amigos
Tem festa que absurdos serão lembrados para sempre
Tem festa que namoros naufragam
Tem festa que amores são descobertos
Tem festa que não sobra uma gota
Tem festa que não resta uma lata
A última festa do Haja Saco não foi nada disso
Há quem garanta que é o fim
Mas há os que ainda acreditam em ressurreição...
Fabio Chiorino, 27, é jornalista, juventino e escreve no Haja Saco às terças-feiras
DYLAN THOMAS
Em novembro de 1953, aos 39 anos, o poeta Dylan Thomas literalmente bebeu até morrer. Na década de 50, ele gozava o auge da fama e do reconhecimento, e mesmo assim vivia sem dinheiro, porque torrava tudo com excessos de todos os tipos, mas principalmente a bebida. Já havia sido alertado que seu estado de saúde precário não agüentaria as doses industriais de álcool que consumia desde muito jovem. Mas Thomas simplesmente preferia beber. E isso é tudo.
Para Thomas, o álcool era um modo de celebração do homem. Portanto, era também poesia. O próprio poeta explica: “(...) O prazer e a função da poesia são, e foram, a celebração do Homem, que é também a celebração de Deus”. Ou seja, dentro da mente de poeta obstinado que era, de um poeta que perseguiu a vida em seus extremos mais luminosos e sombrios, a bebida era um transporte, um veículo da própria poesia.
Dylan Thomas, que nasceu no País de Gales, é um dos poetas de língua inglesa mais poderosos da primeira metade do século XX. Sempre foi precoce. Sua obra, embora não seja grande – como também não foi sua vida –, foi escrita praticamente inteira na juventude, ainda antes dos 30 anos. Seus versos estão impregnados de assombro e melancolia. Sua compreensão é intrincada e nem sempre é possível apreender o sentido bruto do que ele escreveu. É um poeta que, assim como as bebidas que gostava de consumir, exige um longo tempo de maturação.
Sua poesia é uma sucessão de imagens. Sobrepondo claro e escuro, imagens luminosas e obscuras, elementos da natureza e pura brutalidade verbal, Thomas vai costurando uma máquina lírica que, assim como essa própria expressão, nos remete imediatamente a um poeta como o português Herberto Helder – que deve ter lido Dylan Thomas. Nelas, ele geralmente evoca o amor, a morte, a solidão, a fraqueza, a condição do ser humano em situações apocalípticas.
O comportamento desregrado de Dylan, sua predileção por extremos e abismos, sua maneira de viver à base de excessos – tudo isso antecipa o que foi a geração beat. E essa mesma vida alucinante que levava pulsava em sua literatura. Os poemas, embora sombrios e obscuros, são vivos, vibrantes, como batidas arrítmicas de um coração sangrando.
O Dylan de Bob Dylan, inclusive, foi tirado do nome do poeta galês, que foi uma importante influência do músico norte-americano, com suas letras também repletas de imagens, principalmente as da década de 60.
Os versos de Dylan Thomas dão a impressão de estarem constantemente atrás de uma espécie de penumbra, uma neblina. Não é fácil abrir caminho. O poeta nunca se permitiu facilidades, nunca quis isso. Pelo contrário, sempre se propôs uma obra altamente complexa. Só é possível penetrar à força de seguidas tentativas. Ele exige do leitor a mesma obstinação que tinha na hora de escrever, de escolher cada palavra com um cuidado de artesão. Mas, quando se consegue ir além, a recompensa é gratificante.
Mauricio Duarte dos Santos, 27, é jornalista e escreve no Haja Saco às segunda-feiras
BALA DE MEL E GENGIBRE
Hoje eu comi uma bala de mel e gengibre
que me lembrou você.
Parecia ser uma bala como as outras,
daquelas duras no começo,
mas que ficam moles bem no finalzinho,
quando já é o fim mesmo
e não adianta mais.
Você mal tem tempo de sentir
sua língua e a goma
se tornando uma coisa só
e logo tudo se acaba,
se derrete,
fica a lembrança
na garganta
de uma indulgência mal degustada.
Essa bala não.
Dentro da embalagem parecia ser durona,
mas depois de abri-la
pacientemente
para não estragar o plástico
(vai que precisasse embrulhar de novo),
colocá-la na boca e,
delicadamente,
começar a brincar com ela,
percebi que era mole.
Fiquei na dúvida,
balas me confundem,
mesmo as moles têm texturas diferentes,
algumas acabam em segundos se não chupar devagarzinho,
mas essa resolvi mastigar.
Então,
sem que eu pudesse evitar,
de repente
estava colada nos meus dentes,
grudada onde podia,
tomando conta de tudo,
dando a sensação de que nunca mais se dissolveria,
seria para sempre parte do meu corpo,
da minha saliva,
do meu paladar.
Até seu gosto me confundia,
um sabor adocicado no começo
que depois ardia,
quase queimava;
mas quando o doce
e o ardido
passavam,
deixavam um alívio,
uma calma,
uma paz na minha língua.
Não tomei café
nem escovei os dentes depois do almoço,
e até agora não decidi se a bala
era doce
ou ardida.
Ou os dois.
Só sei que era boa.
Uma delícia.
Marcela Ribeiro, 27, é cantora/compositora e disponibiliza suas músicas no www.myspace.com/maribeiro
PERNAMBUCO, CEARÁ, PARAÍBA
Pobres nordestinos. Não bastasse o eterno preconceito, normalmente traduzido em apelidos com nome de Estados (Pernambuco, Ceará, Paraíba) e os subempregos delegados em nome da “falta-de-mão-de-obra-qualificada”, eles agora amargam um novo karma em São Paulo: o marketeiro político.
Donos de um gosto musical medíocre e de um vasto repertório de clichês, que vai de frases de efeito a personagens típicos e sotaques de todas as regiões, os gênios que tocam as campanhas transformaram a disputa paulistana numa ode “àqueles ajudaram a construir São Paulo” – ainda que nunca tenham recebido direitos por isso.
A cara de pau é tanta que um deles, no rádio, fez uma mesa redonda com um pseudo-nordestino, “o bom baiano”, um italiano e um motoboy (sem raça definida). O “bom baiano” reconhece os feitos, o apóia como candidato. Os outros ainda estão em cima do muro...
Tem também a candidata que pôs pra desfilar todos os Pernambucos, Cearás, Paraíbas que encontrou espremidos nos pontos de ônibus, nos caixas dos supermercados e nas cozinhas de casas de amigas dela. Deu-lhes verba, os maquiou, comprou roupas. Eles agradecem, em tom de redenção.
O terceiro, velha raposa, voltou a Guaianases, onde jura ter construído metade dali, e abraçou um por um, banhados de suor mesmo, na volta do trabalho. Esse é o cara.
E outros não deixam por menos, investindo em jingles de rádio e vinhetas de TV regados por xaxados, xotes, baião e repente. Ah, e há ainda as caminhadas, onde se come rabada, mungunzá e girimum.
MPB? Rap? Loiros e engravatados? Por que essa exploração dos nordestinos? Isso é marketing? Políticos maquiados até as nádegas beijando e beijando gente por quem não dariam uma pinga?
Morte aos marketeiros políticos.
PRA ELA
é ela lá
minha solidão
no meio do salão
trocando de par
outra vez
é ela lá
minha solidão
rodando
ficando tonta
de tanto tentar
alcançar
de braços dados
com a saudade
eu vou
é ela lá
repetindo baixinho
que veio pra ficar
sólida
o sal da solidão é a saudade

CONVITE HAJA SACO
Se prepare para a 5° edição da tão aguardada festa do Haja Saco. E de quebra, ainda teremos a comemoração de aniversário duplo dos colunistas Mauricio e Fabinho. A festa será no dia 13 de setembro, sábado, no Espaço Zé Presidente, a partir das 23h. A casa fica na Rua Cardeal Arcoverde, 1545 - Pinheiros. Para entrar, é só desembolsar R$10. Lá dentro, tem um bar com ótimas bebidas a preços módicos, e cada convidado fica com sua comanda individual. O som ficará por conta do DJ Komodo. E atenção: a casa só aceita dinheiro e cheque. Pode levar quem quiser. Esperamos todos lá.
RESGATE PARTE 1 - LIVROS
Enquanto Albertine Dormia...
Vamos lá: existe o Em Busca do Tempo Perdido do Marcel Proust. A obra se divide em sete livros. Entre eles existe um chamado A Prisioneira. Dentro desse livro existem umas duas páginas e meia que falam sobre a personagem que ele gosta, Albertine, dormindo.
Bom, explicado isso vale dizer o que ele fala sobre esse sono. Esse sono não é qualquer sono, é o sono da menina que ele deseja, e por isso mesmo é diferente de todos os outros.
É fácil um dos trechos mais bonitos, de qualquer coisa, que alguém já escreveu nesse mundo. Ele basicamente diz que ela nunca, jamais é tão dele quanto quando ela dorme. Enquanto ela dorme, ele fica na vigília, observando o corpo calmo e deitado na paz de um universo que não podemos acessar a qualquer hora. Como se assim pudesse espantar todos os pesadelos que a cercam e, mais importante até, que também o cercam.
O fato é que se trata quase de um fetiche. Ali morre o desejo sexual e sobressai um carinho imenso e uma vontade de ter controle sobre quem ele adora que é impossível em outro momento.
Deitada ali, imóvel e submersa em uma fantasia desconhecida, ela é tudo o que ele sempre quis. Ele a recria em sua cabeça e sente a segurança de possuí-la, não carnalmente e até por isso mesmo de forma mais profunda, sem nenhuma ameaça externa no momento em que ela se encontra mais vulnerável e indefesa. E completamente entregue à confiança dele. Ambos estão, cada um em seu pequeno mundo, fechados em um mundo maior que somente a junção dos estados em que cada um se encontra – ela dormindo e ele velando – pode criar. Ainda que ele seja consciente e ativo nessa criação, e ela inconsciente e passiva, nada seria possível se a configuração da cena fosse outra. Desse jeito, dormir nunca é demais.
Mágica
Nesse exato momento acabei de ler o conto "Ridder e o pesa-papéis", de um escritor peruano pouco conhecido, chamado Julio Ramón Ribeyro, e que está no livro Só Para Fumantes. É daqueles contos em que todos os acontecimentos exploram uma dimensão completamente verossímil para de repente, sem aviso e de maneira surpreendente, cair em algum acontecimento que joga a realidade para uma outra dimensão e evoca o fantástico, uma metáfora da imprevisibilidade da vida, algo sem explicação - como a chuva de sapos no final de Magnólia - e que muitas vezes é, na verdade, um movimento que, dentro dessa esfera irreal, mostra uma semelhança assustadora com eventos que podem ser cotidianos mas que não acontecem sempre. Explicando melhor: podem ser cotidianos dentro da possibilidade de acontecer, para o bem ou para o mal, mas jamais comuns já que possuem o efeito de surpresa que um fato que acontecesse todos os dias não teria. Exemplificando: um telefonema completamente inesperado de alguém que você jamais imaginaria que fosse te ligar.
É estranho pensar nesse tipo de coisa e avaliá-lo de uma maneira que não seja ligada simplesmente a uma racionalidade do dia-a-dia. E talvez esse seja um erro, uma espécie de diminuição dos fatos de nossas vidas quando vistas dentro de uma esfera maior, que contabiliza nossas influências e tudo que nos cerca. De alguma forma, é dentro desses acontecimentos pequenos que se expressa, talvez com mais força do que qualquer mitologia tente nos vender, um misticismo crível, uma existência realmente acima das nossas possibilidades e do nosso controle que pode ser tanto encantador quanto assustador. Tudo longe de ser uma experiência místico-religiosa, é antes de tudo uma experiência mística da vida, e o que faz com que cada um consiga enxergar isso corre em um plano particular que é intransferível.
O conto, de certa maneira, me fez perceber isso, assim como outras coisas já haviam feito antes e o farão de novo: esses pequenos milagres que nos cercam. E não seria justo escrever isso aqui e não resumir o que é contado em suas páginas: um jovem escritor viaja pela Bélgica em companhia de uma amiga que é parente de um escritor de sucesso. O jovem deseja conhecer seu ídolo. São apresentados e a nova amizade se revela uma grande decepção. Em certo momento, o jovem vê na mesa do escritor um pesa-papéis idêntico ao que ele tinha em sua casa, no Peru. Certa noite, há dez anos, um grupo de gatos fazia barulho no quintal, levando o jovem a pegar o objeto e atirá-lo para espantar os gatos. Na manhã seguinte, ele vai ao local procurar o objeto, mas não acha nada. Já na casa do escritor, ele pergunta onde o objeto foi encontrado, e o escritor diz que caiu em seu quintal. O conto termina assim:
"- Mas como veio parar aqui?
Dessa vez, Ridder sorriu:
- O senhor o jogou."
Pronto, está feita a mágica!
Alê Duarte, 31, é traíra e montou o http://hajaparalelo.blogspot.com, de onde tira alguns textos pra colocar aqui. E vice-versa
AGORA SÃO PAULO JÁ SABE!
Antes que acusem ou até mesmo processem o Haja Saco por romper a lei eleitoral, adianto que este blog não fará palanque para nenhum candidato além dos próprios colunistas, lançados recentemente por Marc Tawil. Mas existe um fenômeno nas eleições a prefeito da cidade
Eu duvido que algum leitor ainda não tenha subitamente começado a cantarolar os jingles de Gilberto Kassab. Em algum momento, seja parado no trânsito, esperando a janta esquentar no microondas, deitado no sofá em pleno sábado à tarde, certamente você já se animou com a música tema da campanha. O mote é “Agora São Paulo já sabe, prefeito é Kassab”. E para preencher, o locutor insere o que o partido considera como diferenciais do candidato. Em suma, uma aula de marketing.
Quando menos se espera, surge um coro cantando. “Agora São Paulo já sabe. Pra ter Cidade Limpa, o prefeito é Kassab”, ou “Agora São Paulo já sabe. São 110 AMAs e o prefeito é Kassab”. AMAs?? Isso mesmo. Algo que ninguém sabe ao certo do que se trata, mas que ganha contornos extremamente musicais e com uma melodia fácil de memorizar. E Kassab ainda consegue atacar sua principal oponente, Marta Suplicy. Neste mesmo jingle das AMAs, a história começa com “A saúde ainda não tá perfeita, mas ela tá melhor do que no tempo da prefeita”. Aí surge a locução com “Kassab fez as AMAs para melhorar o atendimento na saúde”. E finaliza com o bordão: “Agora São Paulo já sabe....”. Bobeou, e você já está batucando ou fazendo o tradicional poropopó das torcidas organizadas (eu e meu irmão já fizemos esta simulação. Funciona).
Em um jingle de 15 segundos, o candidato faz um mea-culpa (ainda não está perfeita), um ataque direto (melhor do que no tempo da prefeita) e destaca em números o que foi feito (110 AMAs). Você acha fácil? Eu considero um trabalho primoroso. Centenas de vezes superior do que aqueles depoimentos do Fantástico em que a pessoa tenta contar sua vida de forma esbaforida e termina
A campanha vem dando certo, justamente porque os profissionais de marketing da coligação “São Paulo no Rumo Certo” optaram pela provocação inteligente. No site do candidato é possível ver todos os vídeos, fazer download do jingle, acessar o “Rádio K” e “TV K”, além de diversas mensagens sugestivas espalhadas, como “Cante o Jingle do Kassab, que não taxa nem relaxa”. Ponto para quem enxerga nas eleições
Nos Estados Unidos, as campanhas para a presidência, por exemplo, são eventos de entretenimento. Há cerimônias grandiosas até mesmo para os candidatos aceitarem formalmente a indicação dos partidos Republicano e Democrata. Aqui no Brasil estamos engatinhando, pois ainda existe desconhecimento e um ranço de que política e propaganda não devem ser misturadas. Kassab não é o Barack Obama brasileiro. Nem será. Mas a equipe que o rodeia já entendeu que marketing político é um enorme filão a ser explorado.
Para os mais esquecidos, algo parecido foi feito para ajudar na eleição do presidente Lula, que recebeu um banho de loja, aulas de português e barba aparada. Não à toa, foi reeleito e provavelmente fechará o segundo mandato
Deixando de lado projetos mirabolantes, políticos e planos de governo são muito parecidos. A diferença está justamente na escolha de como preencher o vácuo que se forma ao redor de tanta repetição. Agora São Paulo já sabe, mas os marqueteiros já sabiam muito antes. E o brasileiro, que adora uma competição, recebe sem resistência a influência de todas estas mensagens. O eleitor compra refrigerante, artigos esportivos, celular e carro do ano. Aos poucos, está adicionando os candidatos a sua lista de compras.
Fabio Chiorino, 26, é jornalista, juventino e escreve no Haja Saco às terças-feiras
CONVITE
Estar de férias é ir ao cinema sozinho numa segunda-feira. Estar de férias é o contra-fluxo do metrô. Estar de férias é acordar ao meio-dia e achar cedo. Estar de férias e ler um livro inteiro num único dia e não sentir nem um pingo de sono. Estar de férias é passar a quarta-feira inteira vendo filmes alugados. Estar de férias é encher a cara no meio da semana, no meio da tarde.
Estar de férias é ficar entediado só pra se sentir entediado. Estar de férias é o futebol no domingo. Estar de férias é deixar seu irmão menor ganhar no videogame. Estar de férias é o cheiro do café da minha mãe. Estar de férias é um verso do Cacaso. Estar de férias é ser cúmplice silencioso do acaso. Estar de férias é o novo disco do Marcelo Camelo.
Estar de férias é sonhar dentro de trens, aviões e um foguete chacoalhando na cabeça. Estar de férias é comprar um chinelo novo. E usar. Estar de férias é uma praça, um banco e um livro do Mario Quintana. Estar de férias é estar assim como quem já se foi. Estar de férias é não saber dançar. E dançar mesmo assim.
Estar de férias é o doce de abóbora e de batata comprados num depósito de bairro. Estar de férias é tomar caldo de cana e comer pastel na feira. Estar de férias é aquele suco colorido dentro do fusquinha de plástico. Estar de férias é o sinal do recreio. Estar de férias é ir pro interior. Estar de férias é a pipoca doce da praça da igreja de Bariri.
Estar de férias é um circo capenga chegando numa cidade pequena. Estar de férias é o palhaço Carequinha vivo pra sempre. Estar de férias é uma estrada vazia sem limite de felicidade. Estar de férias é deixar a janela aberta. Estar de férias é ser pego de surpresa pela chuva e não correr. Estar de férias é ficar um pouco triste com a perspectiva da volta.
Estar de férias é esquecer a letra de uma música bem no meio e gastar o dia inteiro só tentando lembrar. Estar de férias é não usar escada rolante. Estar de férias é um lençol branco e limpo. Estar de férias é diminuir uma marcha em relação à humanidade. Estar de férias é estender um poema na janela. Estar de férias é o sorriso dela.
Mauricio Duarte dos Santos, 27, é jornalista e escreve no Haja Saco às segunda-feiras
I HAVE A DREAM
Quem disse que e-mail não atrasa? Recebi hoje, pasmem, um e-mail que o Giba me mandou de Nova York, em agosto, no dia seguinte ao desembarque na terra de Barack Obama. É um texto cheio de referências pessoais, claro, mas achei a narrativa curiosa e divido com vocês:
“Fala garotão!! Bem, já faz mais de 24 horas que cheguei em Nova York e, como não fui deportado, acho que vou até o fim! Como estão as coisas por aí? Esse é meu primeiro e provavelmente último e-mail. Na verdade, escrevo por dois motivos: pra dizer que achei as canetas que você me pediu no Duty Free – são um presente – e já estão comigo. Segundo é que, caso meu avião caia na volta, eu seja morto por um muçulmano xiita na Rua 46 ou deportado pra Guantanamo, quero deixar registrado o sonho que eu tive.
Era assim: eu sonhei que chegava a uma cidade barulhenta pacas, essa mesma Nova York, num vôo cheio de famosos e que durava 30 horas (andei lendo demais sobre a China, acho). Eu de pé, não tinha cadeiras, parecia um coquetel ao lado de atletas como o Michael Phelps, Kobe Bryant e Ronaldinho Gaúcho (se o avião caísse, não tinha Olimpíada). Tinha vários atores brasileiros, uns desconhecidos, o Selton Mello e o Santoro. E, acredite... todos estavam lá por mim. Juro. Ou pelo meu trabalho. Eu viajava como “convidado de honra” da Sony para a estréia do meu musical Sex Shop Café, EM INGLÊS, na Broadway! Um avião recheado com o pessoal do Encena, Orias, Walter, Dani, Thais e companhia, já tinha ido...
Apesar de serem 30 horas, tudo foi muito rápido e caímos direto em uma sala enorme, como se fosse um teatro, mas com piscina (?). Eu era anunciado no palco, numa língua estranha que não era inglês, pelo... Seinfeld (???). Entrava aplaudidíssimo. O Santoro e o Selton Mello batiam palmas efusivos e gritavam “king! He is the king!” Mas não me emocionei. Na verdade, fiquei meio envergonhado até. Por que não a Isis Valdverde ou a Karina Bacchi?
Teve um momento bizarro, em que o Woody Allen apareceu num telão e fez um comentário, o mesmo comentário, várias vezes consecutivas. Era uma frase curta, todos riam, mas eu não entendia. Ao final, ele soltava um “and now, Sex Shooooooop Cafêeeeeeeeew” e todos aplaudiam mais e mais. Daí apareceu no palco que não era palco o Alê de vestido, como o Walter, o protagonista aí em SP, na peça. A mesma cara, trejeitos, figurino, e cantava em inglês. Era tão perfeito que soava como português. O Alê de vestido, o Woody Allen, o Seinfeld com aquela boca aberta... Comecei a desconfiar que fosse sonho, mas não acabava cara!
Aí o teto ficou laranja, recebi um Oscar (isso, um Oscar) e o Alê tirou a peruca, veio me abraçar. De novo, aplausos e “He is the king!”
Tudo não deve ter durado mais do que cinco horas e despertei com a nítida sensação de que estava aqui pra viver isso tudo. Só que acordei sozinho, sem aplausos, sem as risadas do Seinfeld, do Phelps, sem o Alê de vestido... Nem Santoro e Selton Mello apareceram. Mas, olha, a garçonete do hotel é brasileira e me disse que, quando for ao Brasil, vai fazer questão de ver a peça. Bom né?
Beijo, Giba”
O CORDÃO DA ESPERANÇA
Vem,
que de triste,
nessa Cidade,
já basta
eu
Faz um samba
imita um gato
pula da cama
e desenrosca
essa idéia de jirico
do seu cabelo
chanel
Dança
Dança pra passar vergonha
Dança pra fazer chover
bilhetes premiados
na cabeça dos carecas
Vem,
que de triste,
nessa cidade,
já basta
eu
Canta
feito desesperado
com as mãos pro alto
numa língua estranha
entranha uma idéia
louca
e faz.
Finge que é bamba
mas não cai do salto.
Beija
a boca da moça
sonsa
deita na grama
e manda
as crianças fecharem os olhinhos.
Torce a ropa da angústia
até secar
faz pingar o que for mau
e pendura
no varal da esperança
sua última peça
azul.
Vem,
que de triste,
nessa cidade,
já basta
eu.
Segue esse cordão
não é carnaval
mas a gente finge
brinca de inventar
fevereiros.
Vem...

AS MÚSICAS QUE GRAVEI PRA TI
For You, Big Star
Gosto em você até do que não gosto em mim.
Don't Talk (Put Your Head On My Shoulder), Beach Boys
Quando você está triste eu tenho vontade de simplesmente encostar sua cabeça no meu ombro e não falar nada.
Deixar tudo passar só com a força do meu carinho.
Se eu pudesse, fazia como acreditava que era possível quando era criança: sempre que eu estava com muito sono, achava que dava pra passar ele pra outra pessoa apenas encostando a minha mão nela.
Faria assim com a sua tristeza, mas ao inverso.
Um tratamento intensivo pra roubar toda ela pro meu corpo.
Depois eu processava e te devolvia em girassóis.
You Gonna Make Me Lonesome When You Go, Bob Dylan
Cada dia que brilha no seu corpo,
escurece uma noite no meu.
Good To See You, Neil Young
Sou desligado que só.
Então, se você fosse
um pouquinho,
mas um tiquinho só,
menos bonita, talvez
eu nem tivesse reparado
em você, outra vez.
The Partisan, Leonard Cohen
Minha pátria é a sua boca.
I Found A Reason, Velvet Underground
”What comes is better that what came before”,
e ai às vezes eu apelo pra covardia de acreditar no futuro.
Andmoreagain, Love
Um tanto
de você
nunca é
suficiente.
I'm Your Man, Richard Hell and the Voidoids
Macumba, mironga,
despacho, feitiço,
muamba, mandinga
cabala, vudu…
Não adianta fugir...
I put a spell on you...
Sometimes Always, Jesus & Mary Chain
Elas vem e vão.
Mas você mesmo indo
sempre fica.
Mount Everest, Teenage Fanclub
Mesmo no mais alto pico da Terra
meu pensamento só alcança a altura
do seu corpo.
New Madrid, Uncle Tupelo
Não existe
maremoto,
ciclone,
terremoto,
tornado,
tsunami,
tufão,
que mexe mais comigo
do que a batida do seu
coração.
Just Be Simple, Magnolia Electric Co.
Sabe quando há uma criança muito arteira e a gente precisa dizer a ela que no pé da montanha moram homens estranhos com focinhos de porco que saem à noite para capturar quem não se comporta direito?
Pois é. É tão complicado existir homens com focinhos de porco, mas é tão fácil inventá-los.
Gostar de você é simples como uma mentira que se inventa pra uma criança.
The Final Push To The Sum, Grandaddy
Se for preciso
me divido
pra me somar
em você.
Knot Comes Loose, My Morning Jacket
Não sei dar nó.
Tentei aprender até meus dedos sangrarem.
Ai foi minha cabeça que acabou dando um nó.
E ficou amarrada em você.
Mas o nó mesmo, eu não consegui dar até agora.
Não sei o que fazer com uma corda na mão.
É por isso que você vive se desprendendo de mim.
Mary's In India, Dido
Se for o único jeito
de você sentir saudade
me mando pra India
jejuo um ano e entro
pro Guinness só pra
você ouvir falar de
mim.
I Wanna Be Your Boyfriend, Ramones
É uma afirmação.
Mas também é uma pergunta
que nunca teve uma resposta.
Alê Duarte, 31, é traíra e montou o http://hajaparalelo.blogspot.com, de onde tira alguns textos pra colocar aqui. E vice-versa
A DESPEDIDA DO URSINHO PUFF
Os áureos tempos não existiam mais. Com a morte de seu criador e o advento da internet, as crianças não davam mais bola para tolas e inocentes histórias de animação infantil. E dentro deste contexto Ursinho Puff foi incapaz de fugir da depressão. Leitão, Abel, Bisonho e Tigrão ficaram preocupados. Afinal, o obeso urso já não era dos animais mais dinâmicos. Enquanto puderam, monitoraram os comportamentos do dócil amigo.
Mas ele escapou. Fugiu do bosque dos Cem Acres, embarcou num navio cargueiro e chegou a Tóquio. Olhou pela última vez para
Não queria entrar num estado de alucinação. A necessidade era outra. Puff já um velho urso, muito diferente daquele que se tornou o segundo mais rentável personagem da história da Disney. À época, só dividia os holofotes com Mickey Mouse, o rato politicamente correto. O mel servia como uma morfina para um paciente
Logo percebeu a impossibilidade de encontrar seu bem mais valioso entre postes de iluminação e arranha-céus assustadoramente gigantescos. Nem abelhas avistava. Desesperou-se, como não poderia ser diferente. E pior. Tornou-se extremamente agressivo. Devolvia olhares de ódio àqueles que insistiam em encará-lo como se fosse uma aberração. Avançava sobre todas as crianças de olhos puxados que ensaiavam um cafuné na sua cabeça amarela ou um apertão em seu nariz preto.
Quando se viu cercado pela polícia de Tóquio, teve a convicção de que aquela seria a última grande aparição para o famigerado público que ainda acompanhava seus passos. Foi pego com US$ 160, provenientes de um assalto estúpido. Desconhecia o significado dos valores e não tinha idéia de como usar aquele montante de cédulas. Foi difícil para os policiais. Muito menos por levantar meia tonelada e muito mais por recolher das ruas aquele que um dia encantou os fins
Ursinho Puff não só passou a noite na delegacia, como ficou por lá, num estado hibernação sem volta. Em suas últimas horas, sonhou com um lago gigante repleto de mel. Mergulhava e banhava-se ininterruptas vezes. Uma seqüencia frenética e infindável de felicidade solitária. Ao seu redor, estavam seus amigos do bosque, companheiros de sempre, que o aplaudiam e gritavam seu nome. Transformava-se numa colméia de si próprio. E assim se foi.
Esta é uma crônica real. Para quem preferir a ficção, o ensaio foi publicado no Portal G-1
Fabio Chiorino, 26, é jornalista, juventino e escreve no Haja Saco às terças-feiras
O I-CHING, AS MOEDAS E O ACASO
Quando ele ouviu aquelas três moedas de dez centavos douradas se chocando contra o fundo branco do prato pensou que estava ficando fraco. I-Ching? Mesmo com o aval do Jung, por que diabos logo agora ele iria se interessar por isso? Ele não acreditava em nada, ou acreditava apenas no barulho dos ônibus trepidando na rua, nas pessoas debatendo-se contra a vida irremediável. Para ele, as coisas não funcionavam daquela maneira.
Depois, imediatamente sua cabeça começou a trabalhar imagens, porque ela só funcionava assim. De certa forma, era bonito ver o contraste das três esferas brilhando sobre um fundo branco. O barulho que elas faziam, girando com a força da pergunta que ele havia pensando antes de atirá-las, como um frenético balé do destino. Imaginou que, de certa forma, a disposição das moedas podia variar de acordo com o desejo de uma resposta positiva.
Bateu o olho no prefácio de Jung e deu com a seguinte frase: “Submeti duas perguntas ao método do acaso representado pelo oráculo das moedas (...)”. Não precisou continuar a ler. A palavra estava ali: acaso. Se ele parasse para pensar na tremenda força que o acaso exercia em sua vida, ou mesmo a importância inconsciente que atribuía a ele, talvez tivesse entendido o que o moveu a aceitar a brincadeira. Encontros casuais, horários perdidos, reviravoltas mirabolantes que percorriam caminhos sinuosos que o levariam ao inesperado. Nadja, de André Breton, era seu livro de cabeceira. Era por essas coisas que se interessava. Toda sua vida era uma ode ao acaso.
Pela sexta vez viu as moedas dançarem na superfície do prato. Agora pensava em milênios de tradição oriental. Que merda tenho a ver com isso? Foi sua última tentativa de resistência antes de lhe entregarem seu hexagrama. Obviamente tudo aquilo não lhe dizia nada, até que foi ler suas respectivas linhas do hexagrama no livro. Ficou surpreso com a semelhança entre a natureza da pergunta que fizera mentalmente e a consistência da resposta dada pela obra. Tudo se encaixava. Como um polvo, as considerações do I-Ching iam abraçando sua desesperança. Era um alento.
Quando acabou, raciocinou que somos auto-sugestionáveis demais, ou talvez estúpidos demais, para não termos esperança. Foi embora pensando na pergunta que fizera e que preferira guardar consigo. Enquanto caminhava sob o frio e o lusco-fusco dos postes de luz, se questionava se a vida seria mesmo um risco constante de desmoronamento. Uma sucessão de acasos. Ou três moedas num prato.
Fosse como fosse, apesar do frio e do escuro, se a luz de algum dos postes que incidia na rua aumentasse apenas um pouco sua intensidade, seria possível divisar um sorriso de quem espera algo bom que ainda está por vir.
Mauricio Duarte dos Santos, 26, é jornalista e escreve no Haja Saco às segunda-feiras
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