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O que é isto?
haja saco - UOL Blog

CARTA DE UM ACAMPADO NA AVENIDA PAULISTA 

“Meu bem,
Venho por meio desta informá-la que, a partir de hoje, estarei acampado no canteiro central da Avenida Paulista.

Levo um saco de dormir, uns 20 pacotinhos de Miojo e um cantil de água mineral. Também estarão comigo uns três livros da minha pilha de nunca lidos. Talvez tenha passado da hora ler Maiakovski...

Eu não fumo. Mas vou me garantir com uns maços de Marlboro. Posso me sentir sozinho - e acendê-los vão me deixar mais confiante. Não posso esquecer do meu bloquinho de anotações e um lápis (com uma borrachinha em uma das pontas).

Tenho um cobertor separado para tal empreitada, um chinelo gasto e meias de jogar futebol. Não preciso de travesseiros, vou apoiar minha cabeça no concreto - quero ouvir o sussurro dos trens de Metrô contando histórias subterrâneas sobre a Cidade.

Vou me fazer de coisa. Serei paisagem. Buda do meio fio. Totem barbudo. Termômetro de rua. Despacho. Posto de informação para turistas chapados. Máquina de refrigerante quebrada e outros seres inanimados.

Nos primeiros dias de acampamento, os engravatados vão me dedicar desprezo, pressa e alguns trocados; os mendigos vão identificar em mim um potencial concorrente e os hippies perguntarão sobre uma erva que ainda não existe - isso sem falar no bicho grilo que irá arranhar no violão uma música do Raul que eu não conheço.

Os ambulantes irão vender bugigangas sobre minha cabeça (logo estarei, eu mesmo, a venda); as crianças vão me fazer de gangorra e os policiais vão tentar me prender. Vai ter guincho da CET para me levar embora e matéria de televisão para explicar meu gesto.

Para as minorias serei um exemplo. Vão me grudar na testa todas as bandeiras ecológicas, partidárias e sexuais que por ali passarem. Vão me fazer de palanque. Ou me usar de megafone. Estarei em greve. Dos prédios, um dilúvio de papel picado em minha homenagem.

Logo, o prefeito vai chegar de helicóptero. Vai me oferecer um cargo importante na administração pública ou uma boquinha em qualquer Subprefeitura. O banqueiro vai esfregar um cheque gordo e cheio de zeros na minha cara de apache. Os estudantes também virão. O boato será de que o homem acampado na Avenida Paulista poderá cair no vestibular.

O padre vai rezar uma missa em latim. Um vira lata vai fazer xixi em mim. Vou ser grafitado, pichado, restaurado e demolido. Se bobear, serei tombado. Patrimônio Histórico. Um elogio ao silêncio.

Permanecerei ali, feito um homem rocha, durante o sol do meio-dia, a garoa gelada e a tempestade de verão. Pode chover canivete. Ou sapo. Nada irá me abalar. Nem a horda de fantasmas infelizes que costuma assombrar quem dorme na rua.

O próprio Deus, ou um sujeito muito parecido com ele, deve descer das nuvens para discutir comigo. Vou me fingir de ateu. Ficar surdo aos milagres e promessas de felicidade. Dele, não quero nada. Só que me deixe lá. Pedra.

Os dias vão passar. Com o tempo, até os mais escandalizados vão se acostumar com a minha presença, minha falta de vergonha e ousadia. Vou ser coberto com a bandeira nacional. Serei um marco. Políticos, crianças e velhinhos irão tirar fotos ao meu lado. Vou permanecer indiferente...

Bom, daí, quando o povo todo estiver ao meu lado, quando os carros forem impedidos de cruzar a Paulista, quando não houver mais nada para eu aprender naquele pedaço de chão, vou revelar, enfim, o motivo dessa minha tresloucada atitude. Só assim, meu bem, você vai conseguir sorrir outra vez.

Sem mais
Eu.”

Gilberto Amendola, 32, é jornalista e escreve no Haja Saco às quintas-feiras

IMAGEM

“O sonho é a pior das cocaínas”, Fernando Pessoa

Você está sentada na grama. Veste uma camiseta regata preta, um cachecol também preto e óculos escuros. Faz sol e no fundo árvores e postes se confundem atrás de uma barreira de flores. Delicadamente, como se um movimento pudesse ser como uma brisa, você olha para trás e uma mecha de cabelo cai na sua cara.
Isso é uma fotografia. Não fui eu quem tirou. Mas gostaria de ter tirado, mesmo confessando que sou um péssimo fotógrafo. E sem estar lá, posso descobrir algumas coisas:

Apesar do sol sei que algumas partes do seu corpo estão frias.
Sua boca quase esboça um sorriso, como se você tivesse dúvida se quer ou não demonstrar essa pequena felicidade.
Sua imaginação voa para além da paisagem e por um segundo todos os seus desejos parecem capazes de se realizar.
Uma ponta de preocupação surge logo em seguida, mas não o suficiente para estragar o momento.
Você pensa nas coisas que se passaram com a mesma naturalidade que pensa nas coisas que virão. Mas sem certeza de nada.
Sua pele absorve os raios do sol como eu absorvo a sua imagem, tentando guardá-la em algum reservatório: uma despensa pra sonho. E sua imagem é exatamente como o sol num dia frio: a possibilidade de salvação numa manhã desolada.
Mesmo olhando pra lente, o que você vê são nuvens, porque você sonha demais para acreditar nas coisas como elas são.
Você não sente o tempo passar, nem fome, nem sede.
Você só sente o cheiro do mato e a textura do calor que a aquece.
Existe um casco a seu redor, uma redoma protetora na qual você se fecha para não se machucar e para se guardar. Mas a foto revela a fragilidade que há por baixo de toda essa beleza.

Eu sei dessas coisas como sei de você. Como sei de uma vontade que existe dentro de mim de participar desse álbum de fotos mais do que ocupando a posição de observador. Nenhuns olhos podem ser lentes tão dedicadas quanto os meus.
Na noite passada eu sonhei que você voltava com a primavera.

Alê Duarte, 31, é traíra e montou o http://hajaparalelo.blogspot.com, de onde tira alguns textos pra colocar aqui. E vice-versa

FREE TIBET

 

Estou certo de que boa parte do Partido Comunista torceu fervorosamente para que Pequim não vencesse a disputa pela sede dos Jogos Olímpicos de 2008. Porém, como a corrupção também é protagonista no regime (estima-se que 90% das riquezas do país estão nas mãos do Partido ou de familiares dos governantes), a vitória da cidade provocou mais alvoroço do que as tradicionais execuções, quesito em que o país é líder há anos, segundo a Anistia Internacional (470, em 2007).

 

Não teve outra escolha a não ser decretar discretas concessões para que o mundo voltasse olhos mais simpáticos à potência. De imediato, foram instauradas medidas para melhorar o trânsito, diminuir o nível de poluição e tornar mais flexível o acesso a sites de notícias e, consequentemente, facilitar o trabalho de jornalistas estrangeiros. Para agradar de imediato o lado ocidental, construiu ainda uma réplica do Capitólio, o centro do poder legislativo norte-americano, que servirá como um dos três lugares liberados pelas autoridades locais para manifestações e protestos durante as Olimpíadas. Na semana passada, um garoto inaugurou o local. Com um cata-vento na mão, expressou-se livremente, como se pode notar na figura abaixo. Felizmente, não há notícias de que sua família sofreu sanções ou ameaças.

 

 

 

O Brasil levará a Pequim 469 atletas, a maior delegação da história da participação brasileira em Jogos Olímpicos. Buscando evitar situações diplomáticas embaraçosas, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) criou o “Regulamento das Delegações”, uma cartilha com um conjunto de normas que será entregue aos chefes de equipe e aos atletas de todas as modalidades esportivas com algum representante tupiniquim. Uma das principais orientações (leia-se “ordens”) é não emitir opinião ou dar declarações a favor do Tibete. Recentemente, a imprensa de Hong Kong informou que a cantora islandesa Björk deve ser banida da China por tempo indeterminado por ter gritado 'Free Tibet' ao final de um show realizado em Xangai. Ninguém imagina o velejador e octacampeão mundial Robert Scheidt, porta-bandeira do Brasil, fazendo algum ato insano na cerimônia de abertura da competição, no dia 8 de agosto, mas, por via das dúvidas, o COB achou melhor se prevenir.

 

Mais interessantes são os outros tópicos da cartilha, que se aproxima muito de um manual de conduta de acampamento para ginasiais. A lista de proibições é extensa. “Dormir fora da Vila Olímpica ou sair dela sem autorização”. Como Romário não está por lá, uma preocupação a menos. “Deixar a cama desarrumada”. O jovem Alexandre Pato, que sempre desobedeceu a mãe, terá que aprender a esticar um lençol. “Fotografar ou filmar a cerimônia de abertura” Medida que visa evitar aquela cena clássica de turista acidental, retardando o prosseguimento do desfile para conseguir melhores poses. “Tomar remédio sem avisar o médico”. Imaginem a junta médica que seria providenciada caso a nadadora Rebeca Gusmão fosse aos Jogos. Mesmo depois de ser flagrada novamente num teste antidoping (positivo para testosterona), a cartilha do COB não deve interferir mais na vida de Gusmão. “Paçoca”, como é carinhosamente chamada pelo marido, planeja, caso não seja banida definitivamente do esporte, representar outra nação nas Olimpíadas de 2012, em Londres.

 

Na mesma cartilha ainda constam como impeditivos “Andar sem camisa”, “Atrasar-se”, “Promover algazarra”, “Ofender árbitros, atletas ou público”, “Beber ou fumar”, “Passear com parentes e amigos” e “Disputar jogos de azar” (adeus, poker). Seria bom traduzir melhor o subjetivo termo ‘algazarra’. Talvez a seleção de vôlei masculina esteja autorizada a promover um samba pelos corredores da Vila Olímpica. Ao mesmo tempo, é capaz que seja considerado além da conta se a equipe de judô tomar uns goles a mais de saquê e promover um strip-tease de quimono. Também está fora de cogitação criar sites na internet, prática comum e remunerada pelos principais portais, como UOL, Terra e Globo.

 

Deixo por último a maior polêmica da cartilha, o veto a usar camisa com mensagem, seja ela política, racial, familiar ou religiosa. Certamente este foi o motivo que levou Kaká a desistir de integrar a seleção olímpica de futebol.  Não há como prever quantas medalhas serão conquistadas em Pequim, mas já sabemos que as nossas exíguas conquistas (não se esqueçam que os frágeis patriotismo e otimismo do Pan-Americano já passaram faz tempo) não poderão ser atribuídas ou dedicadas a ninguém, pelo menos enquanto mãos, pernas, bolas, flechas e velas estiverem em movimento. A censura venceu. E baterá todos os recordes. A mulher amada, o filho recém-nascido, Jesus e a Vila Brasilândia foram cortados da delegação. Eis os primeiros barrados na porta do Ninho de Pássaro.

 

Fabio Chiorino, 26, é jornalista, juventino e escreve no Haja Saco às terças-feiras

ROMÂNTICA

 

I

 

toda noite esperava

que ela pegasse no sono

pra só depois dormir

 

gostava de aparecer

de surpresa nos

sonhos dela

 

II

 

no primeiro aniversário

de namoro, ele deu-lhe

um relógio retroativo

 

é pra você contar o tempo

que perco quando estou

longe de você, dizia o cartão

 

III

 

ela cismava com pés, sapatos

vivia olhando pra baixo, para

os calçados das pessoas

tirava fotos

 

certa vez ele achou que ela

andava meio descuidada

de olhar nos olhos dele

 

passou um dia inteiro

plantando bananeira

 

IV

 

praticavam um jogo:

de dois em dois anos

reeditavam a ocasião

em que se conheceram

 

saía tudo perfeito e parecia

mesmo ser a primeira vez:

os gestos, as palavras,

os olhares, a esperança,

os movimentos das mãos

 

nunca precisaram de ensaio:

nasceram estudados um no outro

 

Mauricio Duarte dos Santos, 26, é jornalista e escreve no Haja Saco às segunda-feiras

PARA 17 DE JULHO DE 2007

 

(Título original: Não me venham falar em acidente)

 

Escrevi esse texto em 18/07/07, um dia depois da inacreditável e absurda catástrofe com o avião da TAM.  Hoje, após o inacreditável e o absurdo completarem um ano, volto a 17/07/07 (com acréscimo de um segundo título e uma única frase) em obstinada resistência à banalização

 

Nós, humanos, temos reações verdadeiramente incríveis. Choque, tristeza, dor, incredulidade, compaixão, descrença, raiva , tudo isso senti quando da queda do avião da Gol, outubro do ano passado em plena floresta amazônica. Chorei muito, dias seguidos, inconformada. Aos poucos, fui me acalmando, me lembrando dos extremamente racionais que não nos permitem esvaziar a dor, com sua teoria de que “a vida continua” e, fui indo. ..

 

Entretanto, ao que tudo indica, o terror nem pensa em dar trégua. Ontem, em questão de segundos, chegou de novo, de forma nunca antes vista, destruindo tudo e todos, sem a menor cerimônia, em plena cidade de São Paulo. Minha reação foi mil vezes mais forte que a anterior (que me chamem de exagerada, não estou nem aí). Saber que catástrofe tão medonha estava acontecendo aqui, na minha cidade e não no Pará, no Rio de Janeiro, doeu muito, mas muito mais. Eu mesma não sei explicar o motivo. Reação estranha ou natural? Sei lá, isso também não importa. De ontem para hoje, ouvi muita gente dizendo que agora está com medo de viajar de avião. Natural. Com desastres praticamente semestrais, quem quer se arriscar?

 

Eu, particularmente, não tenho medo, nunca vou ter e não poderia ser diferente. MEU PAI ERA PILOTO. Por toda a vida piloto, exceto nos seus últimos dez anos. Milhares de sãs e salvas belíssimas decolagens e aterrissagens em dezenas de aeroportos deste vasto mundo, no comando de todos os tipos possíveis de aeronaves. Cresci SABENDO (e não apenas acreditando) que o avião é o meio de transporte mais seguro que existe. Por que então, apesar de tudo, eu passaria a ter medo?

 

Tenho medo, tenho horror, isso sim, é da ganância, da ambição desmedida, do descaso, do desrespeito e de outros traços de caráter que levam, por exemplo, um juiz a permitir a reabertura da pista principal do aeroporto de Congonhas baseado (?) no argumento dos interessados de que as condições “mínimas” de segurança estariam asseguradas. Como assim? Em se tratando de VIDAS, não seriam as condições máximas a serem asseguradas?

 

Por favor, não me venham falar em acidente. Não vi nenhum cavalo atravessando a pista.

 

Maria Beatriz Leite Costa

São Paulo, 18 de julho de 2007

 

Maria Beatriz Leite Costa é uma mulher alterada e, definitivamente, pretensiosa

ESTOU AMANDO!

Alguns minutos atrás, assistindo provavelmente ao TV Fama, me dei conta de como é difícil ter um coração de lata num mundo dominado por amantes de várias espécies. A ex-VJ, ex-apresentadora, ex-cantora, ex-tudo Sabrina Parllatore, que vem se parecendo a cada dia mais com o Rodrigo Santoro (ou vice-versa), dizia a plenos pulmões e com o sorriso largo à repórter que “está amandooo”. O assunto da entrevista girava em torno, juro, do filho que ela NÃO teve com o Rodrigo Veronese, espécie de Mário Gomes dos dias atuais, que acaba de engravidar a namorada.

Confuso, mas os três – e muito possivelmente a repórter – estão AMANDO de verdade. Sim, porque amar deixou de ser arte de Picasso pra virar o mais reles cartaz de Romero Britto. Todos amam, todos se deixam amar. Todos espalham por aí que estão amando. No Orkut, se houvesse a escolha pelo grau de amabilidade, possivelmente milhões escreveriam – “namorando (e amando, claro)”.

Para o amor não há tempo nem espaço mais. Ama-se por semana, numa viagem de quatro dias, numa festa, num cruzeiro universitário, no estágio, num encontrão na fila do banco, no cativeiro...

Nesses quase (cada vez mais quase) 35 anos, não fui apresentado ao amor. Sei que isso pode chocar minha(s) ex(s)-namorada(s) que me monitoram por aqui, mas acho que elas têm o direito de saber. Digo que não apertei a mão do AMOOOOOR mesmo, daqueles que, se eu tivesse mais cabelos, arrancaria por aí. AMOOOOR de o coração ficar apertado como o de uma galinha quando se pensa na mulher amada. Chorar de tristeza, alegrar-se com a possibilidade de dividirmos por mais de 3 dias o teto, as escovas, o computador, os lençóis, as contas.

Tudo bem. Acho que não nasci mesmo para isso que chamam de amor.

Mas nada impede que eu morra com ele, não é?

Marc Tawil, 34, é um exibicionista e escreve no Haja Saco às sextas-feiras

Amigos,
Amanhã (sexta-feira, dia 25), vou lançar (pela segunda vez) o Maria Antônia - A História de uma Guerra. O lançamento vai rolar das 19h até as 22h na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, da Avenida Paulista (Av. Paulista, 2.073). Espero todos vocês lá.

 
O ESTRANHO QUE SE SENTA AO MEU LADO 

O estranho que se senta ao meu lado não apareceu hoje. Ouvi dizer que essa é a primeira falta do sujeito em mais de 30 anos de firma. “Talvez tenha morrido”, disseram no fumódromo, durante o vigésimo cafezinho do dia. Eu mesmo, que estou aqui há bem menos tempo, já perdi as contas dos meus ‘perdidos’. Já inventei gripe, indisposição estomacal, suspeita de hepatite C e matei a mesma tia de Sorocaba umas três vezes. Ninguém nunca me importunou. Faz parte da nossa cultura corporativa.

Mas o estranho que se senta ao meu lado nunca faria isso. Ele é (ou era) um romântico. O cara se fez aqui, sabe? Sempre foi grato a firma, cumpridor dos seus deveres e horários. Quase um fanático religioso, um adorador do ‘Deus Patrão’. Daqueles que, como dizem por aí, veste a camisa, transpira sangue e dorme no trabalho. Isso tudo ganhando uma merreca pornográfica. Menos do que eu. Um idiota, é claro. Ou talvez tenha uma mulher muito feia em casa. Vai saber...

A mesa dele parece Bagdá depois de um bombardeio americano. O Bin Laden poderia se esconder embaixo desse amontoado de lixo. Por que será que ele não joga nada fora? Que maluco! Vou dar uma espiadinha. Se eu não tirar nada do lugar, ninguém vai perceber. Nem ele. Se é que o cara não empacotou de verdade. Uma falta depois de 30 anos só pode ser tragédia. Será que tem câmera escondida no escritório? Ando com mania de perseguição.

O estranho que se senta ao meu lado tem um calendário de 2004 sobre a mesa. Um porta-retrato em que ele aparece de costas, vestido de branco, e olhando para o mar. Um pouco para a esquerda, encontro um maço de cigarros pela metade. Tem uns rabiscos nesse maço - e acho que um telefone anotado (faltando o último número). Olha só, aspirinas e vitaminas. Só falta eu encontrar um Viagra. Seria uma farra aqui na firma.

São seis copinhos plásticos de café. Nenhum deles está vazio. Porco. Uma papelada espalhada. Relatórios do ano passado. Propagandas de pizzaria e jornais velhos. Classificados. Alguns anúncios estão circulados. Só os que divulgam os serviços de detetives particulares. Estranho.

Tem uma carta embaixo dessa papelada. Não está selada. Não está lacrada. Posso abrir? Não vou roubar nada. Bisbilhotar não é crime. Vamos ver: “Desculpe, a falta de jeito, mas se eu não te escrevesse, acho que enlouqueceria. Sei que é casada. Sei que gosta do seu marido...” Quem diria... Ele tem cara de bocó, mas anda pegando a mulher de alguém. Por essa, eu não esperava.

Que mesa infernal. Até resto de comida eu já vi. Tem uns livros de auto-ajuda e um CD do Frank Sinatra. Aqui tem um baralho também... Ele faz anotações em tudo que é lugar. Que ridículo. Um velho desses escrevendo ‘Tata, eu te amo’ no meio de um ás de copas. Babaca.

Tem mais alguma coisa aqui nessa bagunça. Uma foto do pessoal da firma, uma que a gente tirou na confraternização do ano passado. Acho que não falta ninguém. Esquisito... por que minha foto está marcada com um xis? Um xis bem no meio da minha cara. O que será que esse maluco... Não é possível...

Cadê, cadê, aquele às de copas... Achei! ‘Tata, eu te amo’. Filho da mãe. Só falta... Cadê, o maço de cigarro? Aqui, aqui... Esse telefone... Mesmo faltando um número, eu sei de quem é. Renata. Tata. Renata. Minha mulher. Desgraçado, maluco. A tal carta... Eu mato o desgraçado.

Vou ligar para ela agora e acabar com essa palhaçada. Atende. Atende. Atende a porcaria desse telefone, Renata. Atende...

– O que foi André? O que é que você tá fazendo aí na mesa do Pacheco. Ele pediu as contas ontem. Disse que iria viajar...

Atende esse telefone, Renata. Atende...

Gilberto Amendola, 32, é jornalista e escreve no Haja Saco às quintas-feiras

MIXTAPE

“I thought I'd sit and write this song just for you
to let you know that I am thinking of you”
- For You, Big Star.

Descobri o site Cassette From My Ex (http://www.cassettefrommyex.com) na última sexta-feira, em matéria publicada no caderno Ilustrada da Folha de São Paulo. Pra falar a verdade mesmo, nem li a matéria, não sei se é boa, ruim, média. Simplesmente cliquei no link e me encantei com a idéia.
O troço é o seguinte: as pessoas são convidadas para escreverem sobre fitas K-7 que ganharam de seus ex-namorados (as) e logo abaixo de cada texto vem a seleção das músicas. Dá pra ouvir tudo enquanto se lê. Os textos são bem legais, algo naquela lírica de auto-fidelidade, a música como parceira de qualquer relacionamento.
O legal é que os textos são bem maduros, e conseguem enxergar tudo que se passou com distanciamento e uma necessária dose de realidade. É assim, por exemplo, que alguns convidados chegam a conclusões e comentam desde a má escolha de algumas canções, até o significado da perda da juventude depois de um relacionamento que encerra um tipo de ciclo. Tudo isso está ali, entre um texto e outro.
Eu não poderia aceitar um convite pra participar de um site tão legal como esse, simplesmente porque nunca, nenhuma namorada, nenhuma paquera se quer, fez uma fita pra mim. Claro, já ganhei CDs gravados, mas sempre de um disco só. O que nunca tive, o que me falta, é um mixtape. Em um dos textos, um cara diz que o primeiro mixtape de uma namorada a gente não esquece, e que mais do que uma coleção de músicas, isso pode revelar a personalidade, os sentimentos e as intenções por trás de uma relação.
É verdade, e eu vejo isso mesmo por mim, que já fiz esse tipo de coisa, e com cuidado, sempre tentando revelar alguma intenção, alguma coisa que nem sempre eu tenho coragem de dizer. Então o que se faz é dar uma maquiada, dar um sinalzinho por meio de algum acorde ou algum verso de compositor favorito e ver o que acontece enquanto a coragem não vem. Ai a desculpa é aquela velha “gravei um disco pra você, de umas músicas que gosto”, mas é bem mais que isso.
A motivação pra se gravar uma fita, pra se colocar ali um pouco de você (quando você acha a música um troço tão importante quanto eu) vai muito além do que qualquer coisa. É um desejo de compartilhar mais do que se pensa com alguém, tentar mostrar, de alguma forma, um pouco da nossa própria formação, mais do que nossos sentimentos.
Resgatar, de um jeito particular, uma memória e estabelecer uma conexão maior com alguém especial o suficiente para que nos deixemos mostrar mais do que deveríamos, abrindo o bauzinho dos nossos gostos e tentar, de alguma maneira mais duradoura, fazer parte da história dessa pessoa além de uma simples lembrança, mas também ocupando um espaço físico, ainda que seja do tamanho de um K-7. E na velocidade do som.
Ah, já comecei a pensar a minha próxima fita, e ela poderia começar com uma canção do Big Star...

Alê Duarte, 31, é traíra e montou o http://hajaparalelo.blogspot.com, de onde tira alguns textos pra colocar aqui. E vice-versa

MEU PÉ DE FEIJÃO

 

Eu e Amanda estávamos vasculhando algumas coisas na internet, quando tivemos uma lembrança pueril: significado de nomes. Desde que estamos no ginásio fazemos este exercício de descobrir o que nosso nome representa, checar a tradução dos nomes de colegas e familiares, planejar nomes dos futuros filhos. E lá fomos nós em busca de uma atualização, sem planejar maiores desdobramentos.

 

O primeiro problema é que esta ciência é imutável. Fabio, por si só, nem merece um significa próprio. É uma variação de Fabiano. Sempre foi e sempre será uma reles fava que cresce, feijão crescendo. Ao checar minha estatura com qualquer fita métrica presumo, então, que não passo de uma fava que não vingou. Menos mal a descrição completa que indica uma pessoa com facilidade de comunicação. Diz o site: “Adora conversar, até com desconhecidos, e se sai bem em atividades que exijam contato pessoal e direto, como vendas, relações públicas e entrevistas”. Vendas, relações públicas e entrevistas! Nunca alguém definiu tão bem o trabalho de um assessor de imprensa. Obrigado. Vou atualizar meu currículo.

 

A Amanda, que já sabia o seu de cor, esbanjou todo otimismo ao clicar seu nome. Vem do latim e significa “Digna de ser Amada”. Características: dinâmica e ativa, sempre resolve seus problemas de maneira inteligente, sem forçar situações ou incomodar os outros. Trocando em miúdos, minha namorada é uma pessoa autoconfiante, cuja vida afetiva é marcada pelo excesso de pretendentes, enquanto eu não passo de um incompetente feijão. Legal, crise no relacionamento.

 

Por justiça, decidimos procurar os nomes dos outros quatro jornalistas que integram o Haja Saco. Respeitando a ordem, iniciamos com o Mauricio, que também é, na realidade, uma derivação de Mauro. A explicação é breve: “Mouro da Mauritânia. De pele escura, moreno”. Ok, após conquistar os leitores mais próximos com o seu 1º livro, “Rumor Nenhum”, Mauricio parte a caminho da conquista da Península Ibérica. Deve enfrentar algum preconceito, mas pode fazer um belo poema sobre o menino branco da alma negra.

 

O Alexandre não tem motivos para se queixar. Significa defensor da humanidade e indica um espírito justiceiro e matador. Tem sucesso quando trabalha em atividades comunitárias (leia-se Haja Saco). Com todo este potencial, está na hora do Alê abandonar as baladas no Milo e seus vinis e CDs de jazz e começar a se dedicar a causas mais nobres e universais. Com um pouco de esforço ganha o Nobel da Paz. Ou é assassinado em plena Cardeal Arco Verde e vira mártir.

 

Também é bastante simpático o nome de Gilberto. Significa famoso flecheiro e é a marca registrada de quem está sempre de bem com a vida. Encara os desafios com disposição, como se cada obstáculo fosse uma batalha já vencida. Uma tradução barata revela que Giba é o Robin Hood da Vila Madalena, vagueando com liberdade pela floresta (de pedras e chopes paulistas) e acertando com maestria corações desavisados. A versão anglo-saxônica diz ainda que se trata de um refém brilhante. Não duvido que ele consiga se safar de um seqüestro-relâmpago munido de um texto com gosto de suspiros, provocando uma Síndrome de Estocolmo às avessas.

 

Não poderia faltar a sexta-feira. Marc, a variante francesa de Marcos, tem uma labuta invejável. É classificado como o Deus da Guerra. Causa estranheza para quem conhece seu temperamento dócil. Mas, como as principais polêmicas desse blog envolvem o seu nome, conclui-se que o jornalista anda exercendo bem a sua profissão. Na origem do latim, também é considerado um grande orador. A Band News FM percebeu isso a tempo. Se o Marc topar, sua coluna semanal aqui no blog pode ser substituída por um eletrizante podcast.

 

Não posso jogar fora tanto conhecimento adquirido. Já está definido o próximo passo. Vou começar a ler horóscopos. É bem mais confortável viver com definições, previsões e respostas já prontas, sem se preocupar com o contexto e a lógica dos fatores descritos. Se eu seguir todas as indicações com atenção e os astros estiverem do meu lado, até o final do ano viro uma feijoada. E ganho status de preferência nacional.  

 

Fabio Chiorino, 26, é jornalista, juventino e escreve no Haja Saco às terças-feiras

O OUTRO LADO DA LEI SECA

 

Todo mundo está falando sobre a lei seca no país. Futebol e sexo foram parar no segundo plano do inconsciente coletivo brasileiro. As pessoas vão almoçar e falam da lei seca. Vão trabalhar e falam da sei seca. Falam no ônibus, no metrô. Conheço gente que tem ido a bares apenas para reclamar da lei seca. O sujeito senta lá, pede uma Coca Light com limão e gelo e descarrega todo seu rancor contra a tolerância zero.

 

O que ninguém tem percebido, ou comentado, é de que forma essa lei vai afetar nossa sociedade a médio e longo prazo. Com ela, mexeu-se no equilíbrio natural do ser humano. Enquanto milhares de vidas são salvas pela drástica e significativa redução dos acidentes de trânsito, do outro lado do pavio, muita gente vai parar de nascer. Explico: sem a bebida, como fica o sexo para os feios? Quem vai encarar? Todos sabemos que a próxima geração será formada por filhos de acidente. Mas como, se as pessoas estão ficando sóbrias?

 

Quem mais se prejudica com a lei são as gordinhas e os gordinhos na balada. Aquelas figuras naturalmente carismáticas, simpáticas e eternamente disponíveis. Sempre, seja qual for a balada, você vê um gordinho com uma mulher bonita ou uma gordinha com um cara bacana. Agora eles irão perceber, da pior maneira possível, como um band-aid arrancado de repente, que não era por sua personalidade interessante que eles conseguiam se dar bem às vezes – era a bebida. A desgraça não acaba aí. O pior vai ser quando esses gordinhos ficarem irritados e pararem de ser simpáticos. Uma legião de gordos infelizes é capaz dos piores estragos. É bem capaz que a onda do “metal” volte com toda a força.

 

Sem contar a mulherada que se tornará mais difícil sem a bebida. Para elas, o álcool é uma espécie de aditivo que age diretamente inibindo seu senso de moral e servindo como posterior desculpa pra tudo. “Paty, você deu pra 3 caras só esta semana!” “Ah, essa tequila é fogo!” (gritinhos e risinhos das duas em coro). Esse diálogo vai ficar cada vez mais raro. Ou seja, os homens terão que se aperfeiçoar. Sem a bebida como aliada, teremos que desenvolver outras habilidades, como, por exemplo, um sexto dedo nas mãos.

 

Outra falha grave na lei é considerar apenas o grau etílico no organismo da pessoa, e não seu grau individual de miserabilidade humana. Tinha de ser assim: quanto mais miserável, mais infeliz, mais solitário, mais desgraçado o cara é, maior deveria ser a tolerância de álcool permitida. Imagine um homem que acabou de tomar um pé na bunda da namorada, se arrastando para o bar e tendo que tomar suco de melancia. É desumano. O único consolo possível num caso desses é no boteco (espécie de sociedade ideal), ao lado do seu garçom velho de guerra, tomando quanto agüentar. Além da constatação da embriaguez, é urgente inventar um modo de medir também o quão miserável o indivíduo está antes de sair punindo todo mundo por aí.

 

Caros leitores, peço que reflitam. O futuro que nos espera é sombrio. Maternidades vazias, fim do sexo casual, mulheres se tornando mais difíceis, gordos raivosos, pessoas tristes desprovidas de seu sagrado descanso alcoólico. Fica a pergunta: para onde vamos?

 

Mauricio Duarte dos Santos, 26, é jornalista e escreve no Haja Saco às segunda-feiras

O FIM DA NOITE

 

Desceu do ônibus às pressas e esqueceu a revista-brinde que havia escondido entre a janela e a cortina da poltrona 13. Só percebeu subitamente quando já havia deixado a plataforma da rodoviária e começado a brincar com a respiração que condensava no ar durante o fim da madrugada de inverno.

 

À primeira idéia de ter perdido para sempre a chance de descobrir quem era o goleiro da fotografia na página 13, tirada de um ângulo agudo enquanto ele saltava de lado no ar, com os braços abertos, para fazer uma defesa e, por isso, acabou retratado com a bola em frente ao rosto, ela fez menção de parar. Logo percebeu, porém, que voltar, nem que fosse até o veículo de fuga, já não era uma opção.

 

Caminhava a passos largos e em velocidade. Com as pernas tão curtas quanto o pavio, mal saía do lugar.

 

Entrou no banheiro para se ver no espelho pela primeira vez e só então os ouvidos conseguiram definir que música tocava no alto-falante da rodoviária deserta. Era uma versão de orquestra de Born In The USA, bem na parte do refrão.

 

O reflexo assegurava que tudo continuava exatamente igual. Os maltratados cabelos jeitosamente amassados depois de sete horas dentro do gorro. As olheiras e até o machucado vermelho na ponta esquerda – ou direita, dependendo da perspectiva – do queixo permaneciam firmes.

 

Levou as unhas à marca infectada e tentou, mais uma vez, arrancá-la à força. Como se a pele não fosse um tecido com milhões de células vivas e em constante renovação e que finalmente se regenerariam se ela simplesmente parasse de cutucar a ferida.

 

Como se as várias camadas de sufixo derme fossem apenas uma cobertura plástica dos músculos capazes de atingir a perfeição das imagens manipuladas das revistas.

 

Como se a ferida não houvesse sido causada justamente pela unha que cometia um erro para tentar apagar o mesmo erro.

 

Como se ela desconhecesse tudo isso.

 

A ponte entre o saber e o fazer já estava velha, gasta, enferrujada, apesar da pouca idade e uso. A cada vez que pisava nela, o medo de altura a levava a pensar no motivo para gastar tanto tempo e coragem na travessia. Medo paralisante, e a margem de cá sempre parecia menos ruim do que antes.

 

E então ela seguia para a saída mais próxima da ponte, a entrada. A passos rápidos e em câmera lenta. Enquanto a expiração formava nuvens e resgatava brincadeiras da terceira série, refez a rota final da fuga pela segunda vez. Mas agora a pé.

 

Seguiu reto instintivamente, sem a certeza de que chegaria ao destino, e se congratulou pela falsa coragem de perambular a esmo por uma linha reta. Deixou a ilusão do descontrole tomar conta e logo chegou ao destino.

 

Instalou-se na cadeira – da outra vez era um banco – na varanda do piso superior à espera do melhor momento do dia. Nuvens. Na verdade, era o melhor momento de todos os dias.

 

Ele chegou quando seu relógio de pulso marcava exatamente 7h32. O mesmo relógio que estava no mínimo oito minutos adiantado, de modo que já havia parado de tentar saber com precisão a que horas as coisas aconteciam.

 

Antes de o sol aparecer, o céu já estava claro e o verde das folhas da palmeira, do cacto amarrado a ela e da tinta que cobria detalhes esculpidos na madeira da varanda já estava nítido. Depois que o sol subiu por trás dos edifícios baixos, o verde ficou vivo.

 

Sem permissão, como todo momento digno de registro, chegou cegando. Ela sempre quis saber que ciência explicava como a luz viajava tão rápido e de tão longe para vir beijar, abraçar e se misturar com os tons de todas as cores, se infiltrar pelas retinas, fazer as mãos pararem de tremer e o ar que sai pela boca voltar a ser imperceptível.

 

Nem física, nem química, nem biologia. Só uma ciência humana consegue tatear esse mistério. A certas variáveis não se pode aplicar uma equação.

 

Sem cerimônia, sem esperar que ela terminasse o pensamento, o sol subiu. Desceu. Subiu. Desceu. Sem mover um centímetro.

 

Tentou impregnar na memória o fato mais óbvio do universo, mas sempre esquecido quando se dorme enquanto o dia nasce. Para tudo há um remédio irremediável: o tempo. Não importa quantas horas se viaja para escapar do que sempre estará lá. Não importa quantas vezes a unha arranca a ferida provocada pela unha. Não importa a solidão, a tristeza, a saudade, os erros. Só importa saber que toda noite tem fim. E ele sempre é claro.

 

Ana Carolina Moreno pode contar nos dedos das mãos o número de vezes que viu o sol nascer em 26 anos. Mas aposta que você presenciou menos alvoradas. Blog: http://ana.gotya.nl

ATÉ BREVE

Juro que eu tentei. Aliás, juro por Deus – mesmo sem conhecê-lo pessoalmente – que tentei. Desde a última sexta-feira, quando acordei enviesado, vomitei desabafos de uma noite mal dormida e passei o dia a lamentar o meu mau-humor publicado em posts, tinha prometido a mim mesmo que escreveria um texto “engraçado” – como se a graça fosse cuspida facilmente, compartimentada sempre em esquetes... Bolei piadas, separei anedotas, anotei temas...

Mas ontem, ou antes de ontem para vocês, soube pelo telefone que tinha perdido um dos meus bens mais preciosos: minha avó materna. Chamava-se Esther, tinha 93 anos, morava na França. Estivemos juntos em outubro, por 1 mês. Eu era seu primeiro neto. A dor, o sumiço repentino, o vazio... Tantos sinônimos para rotular uma só tristeza... Não lido mal com a morte. Simplesmente não lido: choro quando preciso chorar, rezo, mentalizo, torço por quem fica, por quem se vai...

Com essa minha avó as coisas foram diferentes. Talvez porque seja minha primeira grande perda. Tive outras perdas, de avôs e avó, inclusive - nenhuma como essa, referência de uma vida inteira. Hoje de tarde minha irmã me telefonou. Queria que eu escrevesse um bilhete, palavras a serem lidas na hora do enterro. Mandei poucas, que divido com vocês:

“À minha eterna avó
Te amo
Obrigado por tudo
Até breve
Do seu Marc”

Marc Tawil, 34, é um exibicionista e escreve no Haja Saco às sextas-feiras

ANDO DESERTO

 

Nem que você aparecesse no instante exato

em que meu pensamento, descrevendo um arco,

me trouxesse, embrulhado em dourado, o dia mais pleno,

mais terno e intenso de nós dois...

 

Nem que você me dissesse agora:

“Cê foi o único que, por sorte, talento ou desatenção,

soube contar os centavos da raspa do tacho do meu pote de ouro".

Nem assim, mulher, nem assim

eu me arrependeria...

 

Nem que você me escrevesse carta

poema parnasiano

ode moderna

ou me enchesse de balela.

Nem que você sussurrasse

como se eu fosse cego

débil

ou tivesse oito anos.

Nem que desenhasse corações no ar

- e pedisse para que eu colorisse.

 

Nem que a vaca tussa.

 

Nem que de um abraço

brotasse uma flor lúdica.

Nem que eu fosse criança outra vez

e você?

você fosse meu primeiro vislumbre de amor.

 

Nem que você fosse única

... quer dizer...

sei que é única.

mas fazer o quê.

 

Nem que isso, nem que aquilo

 

ando deserto.

 

Bate sol

mas não nasce flor.

 

Gilberto Amendola, 32, é jornalista e escreve no Haja Saco às quintas-feiras

ACHADOS E PERDIDOS

Se todos estão tão longe
até quando estão tão perto
da sua vida no meio de
um deserto.
Se tudo parece distante
e solitário e você se fecha
como uma concha pra não se
perder mais ainda.
Se as paredes mudam
de lugar e te tiram do
caminho que você
pensou seguir.
Se você está perdida
como um pássaro
que não tem noção
do tamanho do céu.

Bem, não posso te dizer
como se achar se
não sei nem mesmo
como achar a mim.

Mas posso propor:
Dê-me a sua mão
para nos perdermos
juntos
por
aí.


ESTRELA

Ela despiu seu manto de espinhos
e deixou pela areia uma sombra
como um caminho com pistas
para o paraíso.
Então, numa noite fria de julho,
ela entrou no mar, poderoso demais,
para entender seu corpo pálido e seu
coração partido.

Ali ela virou, para sempre,
o reflexo de uma estrela.


BAND-AID

Você está parada na minha frente.
Pela primeira vez te vejo chorar.
E você está mais linda do que nunca.

Você me conta um segredo.
E me dói.
Eu te conto um segredo.
E também me dói.

Amanhã começam os curativos.

Alê Duarte, 31, é traíra e montou o http://hajaparalelo.blogspot.com, de onde tira alguns textos pra colocar aqui. E vice-versa

DIA M

 

- Alô?

- Fabinho?

- Faaaala, Marc. Tudo em ordem?

- Você tá sozinho?

- Sim, acabei de chegar na agência.

- Melhor assim. Você já entrou no Haja Saco?

- Acabei de ver a confusão. O que aconteceu, rapaz?

- Fui criticado injustamente por causa do meu texto e acabei surtando.

- Esquece isso. O povo te ama

- Eu quero pedir demissão

- Quê?? Como assim?

- Estou abandonando minha coluna de sexta-feira.

- Jamais, Marc. Não aceito.

- Já está decidido. Pode anunciar lá.

- Se você sair, é o começo do fim.

- Estou magoado. De verdade.

- Foi por causa da provocação do Alê?

- Claro. Me acusou de fraude.

- Esquece isso..

- Sou o Daniel Dantas do blog.

- Eu concedo habeas corpus a você.

- Não quero mais. Foi bom enquanto durou.

- Eu sei como é difícil quando criticam um release nosso.

- Release? Já disse mil vezes. Era uma ADAPTAÇÃO.

- Claro, claro. Foi o que eu quis dizer.

- Me sinto humilhado. Vou embora. 

- Mas você é a alma do blog. Seus textos sempre causam as melhores polêmicas.

- Não trabalho mais com a Yoko Ono.

- Yoko?

- É, o Alê. Lançou um blog paralelo, criticou publicamente os companheiros. Rachou o grupo.

- Boa analogia.

- Cansei. Vou me dedicar só ao rádio e à comunidade judaica.

- O Haja vai ficar sem graça.

- Vai nada. Ninguém sentirá minha falta.

- Você é o contraponto. Imagine a taxa de suicídios aumentando só com os textos do Mauricio.

- Nem me fale...

- Se fecharem o Youtube, o Alê desmaia e fica sem coluna.

- Com certeza.

- E com a Lei Seca, as rondas boêmias do Giba perdem força.

- Tem razão.

- E ninguém agüenta mais eu falando que a Mooca é o melhor bairro da cidade.

- Mas não é mesmo. O meu é melhor. Higienópolis.

- Onde você mora está mais pra Santa Cecília, Praça da República...

- Higienópolis!

- Desculpe, desculpe. Estamos mudando de foco.

- Continue.

- Se você sair, tudo vai ficar muito parecido. Você é sempre uma surpresa.

- Jura?

- Claro, a gente nem sabe ao certo se você vai escrever no dia.

- Maldoso. Adeus.

- Calma, brincadeira. Não desliga.

- Você não está me convencendo.

- A gente faz uma festa em sua homenagem.

- Não quero.

- Só com músicas do Balão Mágico.

- Engraçadinho...

- Marcamos um encontro seu com o José Roberto Torero.

- Hun...

- Promovemos uma circuncisão coletiva.

- Seria interessante..

- Todos os colunistas se vestem de drag por um dia

- Grande coisa. Eu já me vesti.

- Não sei mais o que oferecer.

- Esquece, Fabinho. Acabou.

- Estou de luto.

- Daqui a pouco passa.

- A não ser que...

- Não inventa.

- Se você sair do Haja, eu não te levo na Javari pra ver o Juventus jogar.

- Chantagista de merda.

- É pegar ou largar.

- Com direito a Canolli?

- Quantos você quiser.

- Está bem, está bem. Golpe baixo. Aceito a proposta.

- Graças a Deus.

- Só um detalhe.

- O que é agora?

- Eu preciso de uma camisa do Moleque Travesso.

- Eu tenho uma sobrando...

- Legal!

- Mas acho que não entra em você.

- Você tá me chamando de gordo???

- Não! Você entendeu errado.