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O INSTANTE AGORA

 

Você já esteve naquelas dias em que pensa que é burro? Não, né? Mas eu, sim. Então deixa eu continuar a desabafar.

 

Às vezes parece que tudo o que você lê e assiste não é o suficiente para saciar a sede do mundo de mostrar mais e mais coisas novas, fatos relevantes e histórias sem sentido. O pior de tudo é a falta de confiança que você mesmo gera em torno de si com relação a isso. Você com certeza já passou por aquelas situações em que a pessoa fala sobre assuntos que só ela entende e você, por sua vez, apenas balança a cabeça e desfere barulhos internos incompreensíveis apenas para dizer que também está por dentro do tema, não é? Não? Tudo bem, não estou num bom dia mesmo.

 

A parte boa da coisa é que você, pelo menos, sai atrás das notícias que não estava antenado e acaba ficando a par do assunto. O ponto negativo é que você aperta o “atualizar” do seu computador e tem vontade de jogá-lo pela janela, já que ele fez questão de te mostrar mais inúmeras outras coisas novas para você ficar por dentro.

 

Queria saber de tudo e nada mais. Essa vida de atualizações simultâneas não é para qualquer um. É voraz, fria demais. Quero a imortalidade das notícias. Que tal transformá-las em best sellers? Assim todo mundo lê e debate o tema até cansar, sem se preocupar em apertar o “atualizar” da consciência e sair correndo atrás de algo novo.

 

O conceito de atualização é muito complexo e rápido pra mim. Enquanto eu estou lá, curtindo o momento e aquilo que aprendi, você me vem com mais uma novidade e estraga o meu barato. O agora não existe mais. O que existe é o que vai ser daqui a alguns minutos (ou segundos).

 

Você é muito volátil e sem critérios. Atira para todos os lados e festeja se alguém for pego por essa tal instantaneidade  avassaladora. Curta o presente, relembre o passado e planeje o futuro, não manipule o seu destino como se houvesse uma direção certa para as coisas.

 

Eu sou tão burro que ainda me presto ao desagrado de escrever sobre algo que não me sinto à vontade quando encaro. Mas não irei desistir tão fácil. OK, já desisti. Gostaria de estar no seu mundo agora, antes que você aperte o “atualizar” e busque novas alternativas para se distrair.

 

Renê Castro é estudante do último ano de jornalismo nas horas vagas e assessor de imprensa, por opção anti-romancista, no restante do dia.

HOMENS-PLACA

Como pensa um homem-placa? O que faz o homem-placa? Há disputa entre os homens-placa? Sim, há. Nessa semana passei pelo centro da cidade. Fazia tempo que não ia. Entrei pelas ruas lotadas, pisei nas calçadas imperfeitas, sentei-me na escada do Theatro Municipal para ver o movimento das Casas Bahia (antigo Mappin). Desviei de centenas de barracas de camelô para chegar onde eu queria, a Rua 7 de Abril. Antes, observei a arquitetura dos edifícios antigos, sempre perfeita, intocada. Ouvi pregadores segurando a Bíblia grossa com uma mão só, cruzei com rappers, metaleiros, e torcedores da organizada do São Paulo, a Independente. Lembrei-me de que quando comprava vinis nas galerias da 24 de Maio, 15 anos atrás. Ainda fumava um e tinha o sonho de ter dreads no cabelo. Mas parei de fumar e meu cabelo, de crescer.

De todas as mudanças – o centro muda todo dia, mesmo permanecendo igual, não? –, duas me chamaram a atenção. A primeira, a explosão de gente comendo com as mãos, lambuzando os dedos com churrasco grego, abacaxis e chupando manga até o caroço sem guardanapo. Se há uma coisa que me tira do sério é gente que se suja comendo.

A segunda foi a quantidade de homens-placa pela 24 de Maio. Como nenhum estava comendo, parei ali um pouco, li algumas placas, fiz perguntas sonsas, depois me afastei. Decidi observar o movimento de um grupo pouco observado, afinal, observam-se as placas, normalmente. Parados como cabras num pasto, inertes como árvores na paisagem, eles se mexiam pouco. A maioria estava sentada, quieta. Todavia, algo haveria de mudar: um tênue balé-placa despertou minha consciência. Era uma velada disputa territorial.

Descobri, depois de muito estudar o assunto, que por trás daquelas placas inocentes de VENDO OURO, EXAME ADMISSIONAL e SAIA DO SPC e outros tantos chamados mentirosos (ou você acreditou que se vende ouro?), esconde-se uma ferrenha disputa entre homens de passado sombrio e futuro incerto.

Não se pode medir o ego de um homem-placa. E não só por causa da placa que o tampa, creia. Homens-placa não têm sentimentos rasos. Passam o dia bolando planos mirabolantes uns contra os outros, recordando-se das mulheres que os deixaram, de pequenas dívidas. Invejam quem passa sem placa no peito. Se envaidecem ora alguma pobre desesperada pára para pedir um endereço ora para comprar um exame para faltar ao trabalho. São pessoas vis.

No final da tarde, fingindo calmaria, guardam as placas e voltam para casa, mudos. Beijam a mulher, comem o feijão na panela raspada com palha de aço, ajudam os filhos a fazer lição e os põem na cama. Depois, fazem amor, cansados, com suas primeiras esposas, e voltam a levantar-se cedo para pôr a placa como tubinho.

Os homens-placa são perigosos. Cuidado ao passar no centro. Não compre ouro nem faça exames. As placas matam.

Marc Tawil, 34, é um exibicionista e escreve no Haja Saco às sextas-feiras

A GUERRA DA MARIA ANTÔNIA - UM CONVITE

Amigos, é claro que vou aproveitar o espaço do Haja para convidá-los para o lançamento do meu livro, o Maria Antônia - A História de Uma Guerra. O lançamento vai acontecer na terça-feira, dia 03 de junho, das 18h às 22h, no Espaço Leia Mais, uma simpática livraria na Rua Itapicuru, 419, esquina com a Monte Alegre (pertinho da PUC). Queria muito encontrar os amigos e leitores do Haja por lá. Espero vocês lá. Abaixo um trechinho do prólogo do livro...

beijão
Giba

Toda guerra tem sua música...

Coquetéis molotov cruzando o céu. Vidros espatifados. Rojões. Paus, pedras e palavrões. Sirenes da polícia. Os bombeiros. Os cavalos. Falam todos de uma só vez. Fascistas! Comunistas! Tiros. Mais de um. Rajadas. Fumaça. Incêndio. Os fotógrafos. Repórteres no meio. O prédio da Filosofia está pegando fogo. “Salvem o Mimeografo, porra”! O portão do Mackenzie vai cair. “Vamos invadir”. “O exército está chegando”. Os feridos. Os presos. Um choro de mãe. Bombas. Um garoto gordo arremessa cilindros de concreto como se fossem bolas de futebol. Ah, se pegar na cabeça de um... O pessoal da USP fez um estilingue gigante. Ficou do cacete! Ah, se pegar na cabeça de um... Não cabe mais ninguém no bar do Zé. As palavras de ordem são cuspidas. Olhos vermelhos. Tudo cercado. O governador apareceu? Vamos reforçar as barricadas. O fogo está se espalhando. A raiva também. Muita gente, muito quente, muito barulho. O caos.
Um grito.
Não que alguém tenha ouvido.
Não dava.
Mas o menino gritou.
Às 15h, no dia 3 de outubro de 1968, uma quinta-feira, um garoto de 20 anos foi atingido por um tiro.
A bala entrou pela orelha direita e saiu pelo lado esquerdo. Grosso calibre. O rapaz caiu na rua. No meio da Rua Maria Antônia – entre o prédio da Filosofia e o Mackenzie.
Dizem que um breve silêncio interrompeu a música da guerra. Foi como se aquele momento fosse vivido em slow motion.
Um grupo de estudantes carregou o corpo do menino. A cena foi fotografada. Forte.
Levaram-no para um carro do jornal Diário da Noite que estava estacionado na própria Maria Antônia. Nem deu tempo do motorista argumentar.
- Corre pro Hospital das Clínicas!
- É melhor ir algum estudante junto porque senão a ditadura some com o corpo.
O tiro partiu da cobertura de um prédio em construção ao lado do Mackenzie. Policiais e membros do Comando Caça Comunistas praticavam tiro ao alvo do local.
- Quem foi?
- Foi a Polícia?
- Não.
- Foi o pessoal do CCC.
- O Raul Careca?
- Ele não.
- Eu vi o Osni.
- Vi o Tavinho.
- O Flaquer tava lá também.
- Punheteiros filhos da puta.

Gilberto Amendola, 32, é jornalista e escreve no Haja Saco às quintas-feiras

FILOSOFIA PRÁTICA DA MORTE

Meu bem,
acredito que já faz cerca de dez anos que você não recebe nenhuma notícia minha. Desde que abandonei não só você, mas a vida que me cercava a fim de concluir meu intento. E você sabe que não havia outra maneira de escapar do sofrimento que eu poderia impor a todos e também do julgamento que fariam – e que começaram a fazer de mim – desde que impus a necessidade de se criar o que eu chamei de filosofia prática da morte.
O processo, apesar de muito lento, progrediu. Tudo graças a uma disciplina rigorosa e uma vontade que ultrapassou todos os limites que eu pensava ter. Progrediu tanto que realmente acredito estar mais próximo do que jamais estive de criar a minha obra nesse isolamento que muitos consideraram apenas uma fuga, mas que era mais do que isso, era uma necessidade de sobrevivência (ainda que o termo seja paradoxal para explicar alguém que se isolou pela morte para sobreviver).
Às vezes um homem precisa ser radical. E acredite, não há nada de loucura nisso. Há muito de principio e de superação. Para tanto eu não abandonei apenas você, também abandonei tudo que eu amava: meus amigos, minha família, os lugares que eu tanto gostava, a convivência com todos que me fizeram crescer... nada disso poderia estar no meu caminho.
Quando lhe deixei, ficou apenas uma breve carta, mas eu sei que você já sabia dos meus planos e por isso dizia que eu estava obcecado por alguma idéia que você temia. Na carta lhe expliquei tudo. Não sei se você ainda se lembra, ou se você a guardou. Mas posso resumir que a minha obsessão hoje em dia é mais do que uma obsessão. Posso quase senti-la em meu corpo e na minha mente. E falta muito pouco para que ela se torne pura realidade. Finalmente vou provar que é possível ter controle sobre a morte da mesma maneira que imaginamos ter controle sobre a vida, mesmo que filosoficamente muitos acreditem que não podemos controlar nem uma nem outra, ou que ambas não passam de dois lados de uma mesma moeda.
Para tanto, nesses dez anos, vivi de maneira quase monástica. A alimentação foi a mais saudável possível e, a cada ano, sai do jardim solitário onde vivo para procurar um médico, apenas para provar minhas perfeitas condições de saúde. Ao mesmo tempo, meditava todas as noites e tentava, a cada vez mais, me entregar à morte da forma mais pacifica possível, sem dor e lentamente, da mesma maneira que nos entregamos ao sono.
Confesso que durante os anos de treinamento, várias vezes pensei em desistir, mas também sentia que com um pouco mais daria para me entregar por livre e espontânea vontade.  E note bem, não se trata absolutamente de suicídio. Não se trata de acabar com a vida, mas sim se entregar para a morte. É um desejo, e dentro do que penso, o único capaz de satisfazer a vida. Senão veja bem: a vida é sofrimento. Satisfazemos um desejo, sentimos uma breve alegria, para logo depois já mergulharmos no sofrimento que é a procura da satisfação pelo próximo desejo, e assim tudo se dá de maneira sucessiva e interminável, com o sofrimento sempre se impondo à satisfação do que buscamos e só terminando com a morte da qual sempre tentamos fugir. Então pensei: e se eu buscar a morte como se passa para um estágio diferente em plena paz, sem medo, e consciente. E o mais importante, sem violência alguma?
Recentemente entrei em coma. Pude sentir os batimentos cardíacos parando, e não porque havia qualquer tipo de problema ou substância estranha trabalhando no meu corpo, até mesmo porque isso tudo não foi uma escolha do meu corpo, mas sim da minha mente. Eu entrei em coma simplesmente porque eu quis, e ai está toda a base da filosofia que quero provar: que uma pessoa pode morrer porque quer.
Quando acordei não havia memória de um túnel com luz no final, ou um filme sobre a minha vida. Havia seu rosto apenas. Seu rosto branco, frio e pacifico. Sai no jardim e olhei para as flores. Elas estavam mais coloridas do que nunca, brilhavam em todas as cores e parecia que, dessa maneira, nessa explosão de tonalidades, apenas refletiam tudo o que eu enxergava quando olhava para você. Percebi que foi um aviso, que tinha que te escrever para me despedir.
Finalmente meu intento se completará em breve. E eu espero que você fique tão feliz nos braços da vida quanto eu estarei nos braços da morte.
Com amor,
X.

Alê Duarte, 31, é traíra e montou o http://hajaparalelo.blogspot.com, de onde tira alguns textos pra colocar aqui. E vice-versa

MATCH POINT

 

Foi bonito demais acompanhar, no último domingo, o derradeiro passo na carreira do tenista brasileiro Gustavo Kuerten, encerrada na quadra Philippe Chartier, a principal do complexo de Roland Garros (França). Quem viu certamente se emocionou com a recepção calorosa de um povo francês que deixou de lado o simpático Paul-Henri Mathieu, o oponente conterrâneo que estava lá como mero figurante. Ao final do embate, os telões mostraram as três conquistas de Guga - do surgimento com seus cabelos enormes e roupa extravagante (repetiu o modelo na partida final) ao coração desenhado no saibro, no qual o tenista fez questão de se inserir.

 

Kuerten ganhou muitas homenagens, troféu e incessantes aplausos. Constrangido, fez a toalha esquecer do suor e ter mais serventia como amparo para o choro escondido. Na época moderna dos esportes individuais, Guga atingiu por aqui um status de ídolo só comparado ao do piloto de Fórmula 1 Ayrton Senna. Sorte que não encontrou a morte como interrupção. Uma lesão crônica no quadril fez minguar sucessivas temporadas de triunfos e prêmios robustos. Mas pouco importa. Guga terminou o ano de 2000 como o melhor tenista do mundo, superando grandes lendas do esporte até então, como os norte-americanos Pete Sampras e Andre Agassi.  

 

Da mesma forma como aconteceu com Senna, as pessoas acostumaram a acordar cedo aos domingos para acompanhar as decisões com Guga em quadra. Antes do fenômeno, ninguém dava muita bola ao esporte. Tanto que a primeira conquista de Roland Garros, em 1997, foi transmitida pela já extinta TV Manchete. Teve época, lembro bem, que até o Galvão Bueno narrou partida de tênis. Não vingou, mas foi uma grande amostra de que Guga já angariava audiência, seguidores e patrocínios.

 

Diferente do futebol, o tenista, com sua humildade e predestinação, sempre foi capaz de reunir no mesmo sofá crianças, adolescentes, adultos e idosos de ambos os sexos. Não havia torcida adversária. Todos os brasileiros (e mais torcedores espalhados ao redor do mundo) vibravam a cada raquetada certeira. As escolas de tênis lotaram, os torneios nacionais pipocaram e já eram muitos a aplicar com naturalidade em suas conversas termos como ace, backhand, break point, forehand, lob, smash e top spin.

 

Em fevereiro, durante o Aberto do Brasil, Guga fez sua despedida em solo nacional. Com os olhos repletos de lágrimas, soltou a simples frase, quase um pedido de desculpas, mas que define perfeitamente o seu caráter e o quanto o tênis representou em sua vida. "Não é que eu não queira jogar mais, é que não consigo mais".  São poucas as ocasiões em que o resultado pouco importa para os fãs. Em sua última partida, Gustavo Kuerten foi derrotado por 3 sets a 0 por Paul-Henri Mathieu. Foi aplaudido de pé e recebeu um pedaço da quadra como recordação.

 

O esporte sempre será lembrado pelos vencedores. Mas são poucos os que alcançam a excelência de performance por um período de tempo considerável e, mais do que ídolos, tornam-se heróis nacionais. A paixão do torcedor, tantas vezes desprovida de sentidos lógicos e racionais, faz com que nos orgulhemos e nos sentimos um pouco responsáveis por aqueles que de certa forma nos representam e levam a nossa bandeira para o patamar mais alto. Pena que atletas como Guga surjam tão esporadicamente, praticamente acidentes de percurso em um país que não investe em jovens talentos e só tem olhos e bolsos para o futebol.

 

Sem qualquer previsão de algum sucessor, é bem provável que o interesse pelo esporte despenque. O Brasil nunca será o país do tênis, mas será sempre o país de Guga. Esta identificação deveria servir de referência no tratamento que damos aos nossos minguados ídolos. É necessário enxergar do outro lado da rede. Gustavo Kuerten faz parte de uma enxuta lista formada por atletas que jogam sozinhos, mas vencem por uma multidão. Resta-nos traduzir das quadras o sentimento de sincero agradecimento.

 

Fabio Chiorino, 26, é jornalista e escreve no Haja Saco às terças-feiras

O CONTO

 

Ela não se sente confortável logo de saída com o texto. Causa um estranhamento. Porém, curiosamente, não o repele. E logo ela vai se acostumando, tornando-se parte daquilo, movendo-se com naturalidade por onde antes parecia ser uma impenetrável selva de sombras. Então finamente entende as singularidades de tudo aquilo, a ponto de considerar a linguagem uma coisa tão familiar, tão íntima, que é como se compartilhasse seus próprios segredos com ela.

 

Existe uma delicadeza incomum no texto. Muitas vezes pode parecer falsa, mas rapidamente ela percebe que é uma armadilha pensar numa saída tão fácil. O que ela tem diante dos olhos é outra coisa. Não é uma delicadeza convencional. Há requintes de crueldade ali. Fala-se de uma delicadeza cruel, daquilo que é bonito justamente por se saber desamparado. Há uma completa consciência da perda, do acaso que envolve todas as escolhas. Algo que lembra o sorriso do Woody Allen na cena final de Manhattan. 

 

Chega uma hora em que ela percebe que a história exterior aos personagens já não importa. O cenário é mais uma distração do que um acréscimo no enredo. O que vale é o que se passa interiormente com eles. Ela se detém em cada mínimo indício de explicação do que leva esses personagens a fazerem o que fazem. Compreende o que os move, a humanidade que não os afasta dela por eles simplesmente viverem somente no papel.

 

Em dado momento, ela percebe o texto como uma extensão de seus pensamentos. É como se sua atenção guiasse a história, como se o rumo de tudo dependesse apenas dela. Circula com desenvoltura entre os possíveis desfechos reservados aos personagens. Transpõe cada linha com a surpresa de uma descoberta. Não uma descoberta que envolve o que está escrito, mas sim sobre si mesma.

 

Mais do que tudo isso, uma idéia ou um presságio revela-se de maneira clara para ela: terminar de ler o texto seria aniquilar definitivamente uma coisa querida. Seria abandonar a sensação de arrebatamento que a tomou de assalto. Chegar no final, na solidão avassaladora do último ponto, significaria perder a cumplicidade quase mafiosa que só ela e mais ninguém havia adquirido com o texto até ali. Portanto, ela pára. E a história fica suspensa no ar, como um fiapo pendurado no tempo.

 

Assim seria o conto sem final que eu queria escrever para você.

 

Mauricio Duarte dos Santos, 26, é jornalista e escreve no Haja Saco às segunda-feiras

BOBO, A GENTE SE VÊ POR AQUI!

Decidi por escrever esse texto na semana passada, mais precisamente no domingo, ao assistir ao homérico episódio de Eu Tiro o Chapéu com a vitaminada Mulher Melancia. Preciso dizer, antes, que soltar um texto em pleno feriado de Corpus Christi não tem conotação provocativa alguma pelo fato de ser judeu. E também não se trata de uma defesa embora, mesmo sendo judeu, recebi nas costas o manto de Judas Iscariotes dos mesmos companheiros de texto (e de copo) apenas por ter publicado uma resenha melhor do que as minhas, sexta passada.

Isso passa. O que fica, mesmo, são as imagens e os episódios produzidos pela nossa interminável fonte de inspiração diária, agora em versão HD: a televisão.

Por que não me canso de citar aqui a TV? Por que não me canso de ver. E por que não me canso de ver programas toscos, se poderia estar lendo um bom livro, como o do Maurício, estar num show de brit pop com o Gustavo, estar na Rua Javari com o Fabinho e o Da Vila ou até na própria Vila com o Giba e o Alê? Porque eu gosto. Gosto de analisar o que pensam aqueles que fazem (e que têm a cabeça feita) pelo principal veículo informativo do Brasil. Saber quem anda educando nosso povo, como, quando e os porquês.
 
Sex and The City, Lost e o Animal Planet são demais. A Esquire é mesmo a melhor revista masculina do mundo, assim como o The Guardian é o jornal, e a Bild, a revista semanal. Temos também o Le Monde Diplomatique e uma infinidade de TVs e rádios européias, assim como sites americanos e latino-americanos. Mas quem educa o Brasil não é o Larry King. E pra você entender o Brasil, não se iluda, não é assistindo às peripécias amorosas da chatérrima e mal amada Sarah Jéssica Parker.

Pode não ter fundamento algum pra você, que acha os holandeses modernos por transar no parque. Mas um dia vai ter.

Um dia nossa falta de autocrítica vai pesar e vai ser tarde. Quando a Mulher Melancia estiver na fase do Maracujá, quando celebraremos os 30 anos sem Silvio Santos, vamos ver o quanto nossa mexicanização da TV foi venenosa.

Marc Tawil, 34, é um exibicionista e escreve no Haja Saco às sextas-feiras

O GARÇOM QUE ACREDITAVA EM NÓS DOIS

Olha só a cara do nosso garçom. Ele deve achar que a gente acertou os ponteiros e resolveu tentar mais uma vez. Se ele te trouxer, como cortesia de boas-vindas, aquela caipirinha de frutas vermelhas que você sempre pedia quando ainda éramos um casal, por favor, aceite. Seja simpática. Ele não tem culpa do nosso aborrecimento.

Eu quero um tinto. Não uma tacinha. Pode descer a garrafa. Ué, preocupada com o quê? Eu não dirijo. Eu não sei dirigir. Lembra como você ficava incomodada com isso? Era você quem vivia me buscando em casa. No começo, você ria e dizia que eu era a “mulher da relação”, mas depois você admitiu que sentia falta de um certo conforto. Tentou até me ensinar a guiar. Foi patético. Eu bati o seu carro em um poste – e quase matei nós dois.

Eu sabia que ele iria trazer a sua caipirinha. Eu gosto desse cara. Sabe que ele foi o primeiro a descobrir que você tinha me deixado? Ele leu na minha cara – e no jeito em que encostei a barriga no balcão e pedi um chope escuro. Ele me disse: “E aí, Lúcio, cadê a Bel? Ela não vem hoje?” Fiquei quieto. Ele apertou meu ombro e me trouxe uma porção de bolinhos de arroz.

Olha agora a alegria dele. Lembra quando a gente disse que ele seria padrinho do nosso casamento? Acho que ele acreditou. Acho que ele acreditava na gente. Éramos o casal mais promissor desse bar. Saúde! Não quer brindar?

Qual é o problema se o vinho deixa minha língua roxa ou meus dentes um pouco mais escuros? O bem que ele me faz compensa qualquer contratempo ridículo. Faz tempo que o vinho é a minha religião...

De qualquer maneira, fiquei surpreso que você tenha aceitado meu convite. Seu namorado foi viajar... Ah, ele sabe que você está aqui! Posso bater palmas? Vocês são muito sofisticados. O que me deixa esperançoso em relação aos discos de jazz que te dei no nosso último Dia dos Namorados. Ele não quebrou nenhum? Ele também gosta de Chet Baker? Canta My Funny Valentine no seu ouvido? Jura?

Uma noite, nosso garçom me disse que achava seu namorado sem sal. Sim, sim, você é assunto freqüente nessa mesa. Mas ele nunca falou mal de você. Aliás, se trago uma garota aqui, ele fica magoado. Acho que só consegue me imaginar ao seu lado. Antigamente, eu também tinha esse tipo de imaginação.

Como? Com quem eu ando saindo? Interessa? Deixa eu dar um gole dessa caipirinha, vai? Deliciosa. Não você. A caipirinha. Brincadeira. Ah, quer mudar de assunto? Tem medo de alguma recaída?

Sério que você também entrou nessa de ridicularizar o padre Adelir? Só porque ele decidiu voar em balões de gás? E daí que ele não sabia usar o tal do GPS? Você sabe? Eu não sei. Pra viver não é preciso de GPS. O padre Adelir é nosso Quixote. Merece meu respeito. Mais do que isso, Adelir é meu herói.

Tem uma coisa séria pra me contar? Lá vem bomba, né? (... ) Quanto tempo? Três meses? É... Eu tô legal. Esse vinho é ótimo. Tomamos um desse em Buenos Aires. Eu estou te escutando. Fala. Se for menina...

Não. Esse era o nome da nossa... Têm tantos por aí. Não acha crueldade? Por favor, me traz outra garrafa de tinto. Eu sei que essa ainda está pela metade, mas quero outra só pra garantir. Mas olha... Clarinha era pra ser a minha filha... Nossa filha. Não é justo. Eu faço drama? Desculpe. Sempre foi meu jeito. Você já se esqueceu do meu jeito, né?

Você acha que eu vou chorar. Talvez. Mas não na sua frente. Olha lá. Lá no fundo do bar, perto do balcão. É o nosso garçom. Triste. Quase chorando. Certeza que ele ouviu nossa conversa. Sabe de uma coisa? Acho que gosto mais dele do que de você. Agora, me faz um último favor, se por acaso nascer menino, pode chamar de Ailton. Sim, o nome do nosso garçom. Não, não precisa deixar dinheiro nenhum. Eu pago, meu amor. Escapou...

A conta, por favor.

Gilberto Amendola, 32, é jornalista e escreve no Haja Saco às quintas-feiras

DIÁLOGOS PRA DESENHAR

1.
“Você pensa em mim?”
...
“Ow, você pensa em mim?”
...
“Hey, te fiz uma pergunta...”
“Ah, desculpa, não ouvi, tava aqui distraído pensando em você”

2.
“Esqueci de tomar a pílula!”
“Pílula? Não né, a pírula”
“Não, é pílula sim”
“Não é, tenho certeza, é pírula que se fala”
“O que? Será? Tem razão, é pírula mesmo?”
“É sim, pode confiar , é PI-RÚ-LA, e não pílula”
“Bom, então tá, esqueci de tomar a pírula”

3.
“Tem músicas que eu escuto e imagino a sua cara”
“Ah é? Que músicas?
“Não sei, são músicas de lugares que provavelmente você nunca esteve”
“Então como você pode imaginar a minha cara?”
“É porque você tá em todo lugar que eu estou”

4.
“Em informática é fácil resolver as coisas, basta começar de novo”
“Queria que fosse assim com gente também”
“É, mas você ia começar tudo de novo, desde pequeno?”
“Ia sim”
“E pra mudar o que?”
“Pra te conhecer antes”

5.
"Você tá vendo o que eu tô vendo?"
"Errr...não, você tá olhando pra mim..."
"Pois é, é por isso mesmo que a gente nunca vai se entender"

6.
"Que cara é essa? Triste?"
"Preocupado"
"Por quê?"
"É que quando pequeno eu tinha uma tartaruguinha. Eu colocava ela de ponta cabeça e girava, e também pisava no casco, até que um dia ela morreu"
"Tadinha, é isso que te preocupa?"
"Não, tem mais. Também tive um aquário e todos os peixes morreram porque eu dava muita comida. E também um pintinho, deve ter morrido por excesso de carinho"
"Ah, mas tudo isso já faz bastante tempo né, não tem que se preocupar agora"
"Não, tenho sim. É que se você quisesse correr o risco, é de você que eu quero cuidar agora"

7.
"Mas me conta, você foi promovido?"
"Sim"
"E vai trabalhar pra que agora?"
"Pelo seu amor"

8.
“Nos últimos tempos nada deu muito certo”
“Ah, mas normal, é a vida”
“Pois é, mas a minha tá acabando comigo”

9.
“Você desistiu de mim, mas por quê?
“Quer saber mesmo?”
“Sim, claro, você dizia que gostava de mim”
“E gostava mesmo, acho que ainda gosto”
“Então por quê?”
“Tive que escolher. Desisti de você pra não desistir de mim”

Ps: o número 2 é real, e copiado de um antigo blog de um amigo.

Alê Duarte, 31, é traíra e montou o http://hajaparalelo.blogspot.com, de onde tira alguns textos pra colocar aqui. E vice-versa

A MURALHA

 

No primeiro mês de 1997, Fred decide entrar numa sala de bate-papo virtual. Nunca poderia imaginar que do outro lado estaria a mulher que mudaria definitivamente sua vida. Naquele tempo, com 17 anos, era freqüentador contumaz de chats. Não tinha intenções maiores. Integrava uma banda de rock, tinha uma namorada e cabelos compridos. Teclava para se divertir e nada mais. A quilômetros de distância, mais precisamente em Brasília, Laura, uma ruiva de 19 anos, ainda descobria a internet e acreditava que só havia doidos ou solitários do outro lado do monitor. Contundo, se divertia com aquilo, até altas horas da madrugada.

 

Não se sabe quem puxou conversa. Dizem as convenções que foi ele, que começou com uma conversa informal, mas não demorou a pedir uma foto. Lalá - era este seu nickname -, distraída, respondia com frases curtas e lacônicas. Hesitou por alguns momentos, mas enviou seu retrato. Fred ficou alguns minutos em silêncio, provocando em Laura um medo tolo de rejeição. O silêncio era, na verdade, um sinal de admiração. Fred gostou do que viu, mas sempre lhe faltavam as palavras corretas para se expressar. Até tentou digitar algumas frase soltas, mas tornou-se repetitivo e previsível. Laura achou graça daquele embaraço e, instantaneamente, simpatizou com aquela companhia.

 

Aquele dia acabou, mas a amizade, com requintes de flertes, estava em seu início. Trocaram e-mails, conversaram noites seguidas e ganharam intimidade. Após poucos meses, já lamentavam a distância que os separava. Tinham planos, meio mochos, de se conhecerem pessoalmente.

 

Deram prosseguimento às suas vidas, mas eram incapazes de esquecer o efeito que a ausência corporal provocava naquela relação. Em 1999, Laura enfrentou um grave problema de saúde. Nenhum dos amigos dela veio a saber o que estava acontecendo. Fred sabia e não a abandonou. Lalá, deprimida, tentou provocar uma ruptura, mas Fred não permitiu. Mesmo sem receber respostas, ele lhe escrevia diariamente. Sabia que não valia a pena desistir; nunca duvidou da importância que aquela garota adquirira em seus pensamentos.

 

Laura superou aquele momento difícil, até hoje indecifrável, e voltou a viver, de maneira mais intensa possível. Os calendários já apontavam o ano de 2000, quando, em abril, veio a notícia: Laura estava grávida. Fred já sabia, através de conversas anteriores, deste desejo materno, mas não deixou de se impressionar com a novidade. Naqueles dias que se passaram, veio uma idéia louca na cabeça da Fred. Pensou que talvez curtisse ser o pai daquela criança. A idéia passou; Laura não. Durante a gravidez, Fred escrevia todos os dias e se animava com a iminência daquela cria. Ainda naquele mesmo ano, Laura esteve em Campinas, cidade onde passou uma semana, mas sem coragem de ir até São Paulo pra conhecer Fred. Uma mistura de ansiedade com timidez que lhe embrulhava o estômago de forma mais avassaladora do que a própria gestação.

 

Nasceu Francisco, em janeiro de 2001, mesmo ano em que Fred terminou seu então duradouro namoro. Ambos discutiam o reflexo das mudanças em suas vidas e não conseguiam mais disfarçar a vontade de, enfim, se conhecerem cara a cara. Mas muitas luas trocariam de formato no céu até que este dia chegasse.

 

E foi novamente a cidade de Campinas que serviu de palco para o novo episódio daquela história. Após dois anos de banho-maria, chegou o dia 10 de janeiro de 2004 e, com ele, a confirmação oficial do encontro. Encontraram-se na rodoviária, completamente desconcertados. Mas aquela paixão, que ousou durante todo aquele tempo se esconder, veio à tona. Foram dias de arrebatamento emocional. Fred e Laura não se desgrudavam, descobriram as delícias do amor, da companhia constante. Sorriam sem motivo e, ao mesmo tempo, temiam o futuro.

 

Fred precisava voltar para São Paulo; Laura morava agora em São Luís. Novamente a geografia conspirava contra. Separaram-se prometendo um novo encontro, mas dissimularam com pouca habilidade uma independência inexistente. Desta vez, a separação não durou tanto tempo. Reencontraram-se em julho, em Brasília, e viveram a lua-de-mel que se promete em todo romance de folhetim.

 

O sentimento ganhou força, e a possibilidade de uma nova ruptura tornou-se insuportável. Fred tentava não lutar contra o inevitável, enquanto Laura, melancólica, sonhava com um final feliz que nem ela cria de maneira convincente. Voltaram a tomar caminhos distintos. A cada nova conversa, fixava-se uma tristeza repleta de razões. Não sabiam como resolver tal dilema, mas estavam cônscios de que ainda precisariam um do outro.

 

Na última vez que se viram, Fred flagrou Laura, com os olhos marejados, olhando fixamente para um mapa velho. Ele não disse nada. Apenas a abraçou e voltaram para a cama. Enquanto observava Laura ressonando ao seu lado, Fred relembrou fases de sua ainda curta existência. Foi quando percebeu que não tinha a menor idéia do que lhe estaria reservado a partir daquele dia. Mirando sombras provocadas pela luminária, adormeceu com a descoberta de sonhos dolorosos, impossíveis de serem evitados.

 

Fabio Chiorino, 26, é jornalista e escreve no Haja Saco às terças-feiras

How does it feel
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

Bob Dylan

 

MINHA VERSÃO  

 

minha versão de você

pode ser um incômodo

uma mancha negra

no seu calendário de cores

uma sombra veloz por sobre

suas brincadeiras de amores

 

mas não me desculpe

não me sinto mal

talvez eu só tenha

mesmo a te oferecer

este punhado de sal

 

mas meu amor, não se

deslumbre tão fácil

a vida é uma carcaça

de ossos enferrujada

uma velha dama de

companhia recalcada

 

se agora você leva

seus cruéis olhos verdes

pra  passear em violentos

cavalos dourados

e flutua tão facilmente

acima da atenção boquiaberta

de toda uma nação

de rostos indigentes

 

e se sua enorme pretensão

em parecer sempre disponível

espalha sua simpatia mentirosa

por todos os edifícios da cidade

e faz parecer que em nada disso

existe sequer uma gota de maldade

 

e se você faz questão

de ser tão delicada

com esse jeito

particularmente infantil

de esconder seu medo

de que a bolha estoure

vazando todos os seus

enganosos segredos

 

e se hoje ainda uma nuvem

imensa de aplausos insiste em

seguir pra onde seu dedo aponta

e uma legião de homens armados

assoma à sua porta prestando contas

 

você vai entender que nada disso

vale no final da estrada

tome cuidado com o ídolo

feito de delírio e éter

que você leva nas mãos

ele é frágil e efêmero

e não suportará o inevitável

impacto com o chão

 

é necessário entender

o perigo de todo

este falso brilho

que você carrega

pois o excesso

de luz também cega

 

quero ouvir o que você

vai dizer quando a banda

parar de tocar sem aviso

quando chegar a hora

em que no peito não haverá

mais nenhuma bandeira

quando de nada servirão

os 32 dentes encavalados

do seu último sorriso

 

sendo que você

nem faz idéia que

antes, meu bem, muito

antes de saber o que lhe

adoça o gosto,

é preciso afundar

a cara inteira

no esgoto

 

Mauricio Duarte dos Santos, 26, é jornalista e escreve no Haja Saco às segunda-feiras

DA ZONA LOST PARA O MUNDO

Nascida na Zona Lost, amo o metrô como os que lá moram, na Zona Leste, também amam os seus possantes: calotas prateadas, vidros filmados, aparelhos de som superpotentes. Além do "martelinho de ouro" - nunca vi lugar, como vejo no Tatuapé, com tantas lojas oferecendo esse tipo de coisa. Serviço, inclusive, que não tenho idéia de como funciona. O martelinho de ouro seria, "no caso", um martelinho dourado que endireita partes amassadas no carro? Sempre imagino alguém que minuciosamente dá batidinhas delicadas no capô. Minha mãe disse que tem a ver com o brilho. Vai saber, me recuso a dar um Google.

Dia desses, uma amiga da época da escola, e não do colégio, me disse que um amigo nosso virou dono de uma dessas lojas. Será que é complexo pelo nome do bairro? Essa coisa de "tatu a pé", de andar a pé, de repente causa um constrangimento nos que aqui moram. Em mim não, por isso, prefiro mesmo o meu veículo de assentos laranja e que só anda reto. Às vezes, ele é extremamente cheio, a ponto de "levantou o pé, perdeu lugar". Sim, o pé, se sai do chão, corre o risco de não voltar. Tem que ficar no ar, ou sobre outro pé. Tem jeito, não. Às vezes, por outro lado, o metrô é tão vazio quanto um trem europeu. E nosso trem é "made in Espanha", não? Deve ter a ver. Outro dia, numa festa, uma jornalista espanhola e simpática disse que sentiu um dejà vu quando pisou num trem paulistano. Achei confortável pensar que se um dia eu mudasse pra Espanha - apesar de não pensar em mudar pra Espanha -, sentiria um dejà vu, assim como a moça jornalista e simpática.

Da Zona Lost para o mundo, é de metrô que vou continuar indo. Já vem lustrado, tem cadeiras laranja e, às vezes, basta tirar o pé do chão pra se sentir se não nas nuvens, presa numa toca de coelho de Alice no País das Maravilhas.

Luara Calvi Anic, 24, é jornalista e nunca se perdeu na Zona Lost. Mantém o blog A Parede Laranja (http://aparedelaranja.blogspot.com)

Decidi postar um texto de outrem. Talvez pelo texto ser bom demais, talvez porque identifique o momento pelo qual estou passando. Não sei ao certo. Mas creio que cairá bem pra muita gente. Senhoras e senhores, José Roberto Torero

VENCER, PERDER, VENCER ...

Dizem que, durante os grandes desfiles, alguém era encarregado de ir ao lado do imperador romano cochichando em seu ouvido: "Memento mori, memento mori...".

Mal traduzindo, seria algo como "Lembra-te que vais morrer, lembra-te que vais morrer...". Isso serviria para que o soberano, que estava sendo aclamado pela multidão, lembrasse que era um ser falível e imperfeito, um reles mortal.

Se um chato é aquele que estraga um bom momento, o mementomorista era o sujeito mais chato do mundo, pois não deve haver instante de maior glória do que aquele em que se é aplaudido por todo um povo, por toda uma torcida.

Houvesse ainda o emprego deste chato profissional, hoje ele estaria ao lado dos campeões estaduais dizendo aos seus ouvidos: "Memento amittere, memento amittere...", ou seja, "Lembra-te que vais perder, lembra-te que vais perder...".

A verdade é que, depois de uma grande conquista, nem pensamos que sofreremos derrotas daqui a pouco. Os torcedores, os jogadores e os técnicos do time vencedor julgam-se imbatíveis. Vamos lá, confesse, ex-campeã leitora e ex-conquistador leitor, depois de seus últimos títulos, vocês pensavam que seus times eram os maiorais, que seu destino era a glória. Eu, pelo menos, pensei. E há outros exemplos.

Os são-paulinos, depois de conquistarem o bicampeonato brasileiro, estufavam o peito e julgavam que seu time era tão organizado que se tornara invencível. Mas perderam o Paulista. Os santistas, depois de vencerem o São Caetano na final do Estadual do ano passado, julgavam-se predestinados colecionadores de faixas de campeão. Mas nem chegaram ao quadrangular deste ano.

Os atleticanos mineiros nunca poderiam imaginar que, depois de golearem o Cruzeiro por 4 a 0 no primeiro jogo da final do ano passado, seriam derrotados por 5 a 0 agora.

Outros atleticanos, os paranaenses, venceram o Coritiba na final de 2005 e devem ter imaginado que vencer os coxas era sua sina. Pois em 2008 levaram o troco.

Em 2006, o Colo Colo foi campeão baiano, e seus fãs devem ter planejado fazer uma grande sala para os troféus que viriam. Mas no ano seguinte o time foi décimo, quase sendo rebaixado, e agora conseguiu um mediano sexto lugar entre 12 times.

A Chapecoense conquistou o campeonato de Santa Catarina em 2007 e deve ter imaginado que finalmente tornara-se um dos grandes clubes do Estado. Mas em 2008 acabou num modesto oitavo lugar.

Depois de um belo bicampeonato alagoano, o Coruripe dava toda pinta de que iria acabar de vez com a hegemonia dos sigláticos CSA, CRB e ASA. Mas neste ano ficou apenas em sexto lugar entre dez clubes.

A glória vem, a glória vai. A glória vai e vem. E volta. Como voltou ao Coritiba depois de quatro anos, como voltou ao CSA depois de nove anos, como voltou ao Palmeiras depois de mais de uma década.

Muitos comparam a vida com uma estrada, mas uma montanha-russa seria uma metáfora mais exata. Aliás, isso é um alento aos derrotados. Algum dia eles voltarão a vencer. Mesmo o Botafogo.

E depois voltarão a perder. Depois a vencer. Perder. Vencer. Etc...

Marc Tawil, 34, é um exibicionista e escreve no Haja Saco às sextas-feiras

POEMA-COBERTOR

Nessa manhã fria,
escrevi um poema-cobertor
feito de lã
com versos quentes
e enrolados.

Um poema para me proteger
da pneumonia,
da gripe, da sinusite e da solidão.

Um poema-aspirina
pra me tirar da cama.
Vitamina C, suco de laranja.

Um poema-despertador
pra ver se você acorda
de bom humor.

Na minha cabeça
esse é um poema-café quente
madrugador
trabalhador em ônibus lotado.

Um poema barato.

Um poema para bater o ponto do seu coração
para não faltar, não falhar
e não pedir demissão.

Escrevi pra você
pra você picar
bem picadinho
juntar
bem juntinho
e fazer uma fogueirinha.

Queimar, aquecer
e esquecer. (queimar, aquecer, esquecer, queimar...)

Fiz um poema
à toa
- como sempre.

Gilberto Amendola, 32, é jornalista e escreve no Haja Saco às quintas-feiras

POP  

A primeira vez que ela entrou, estava toda vestida de preto. Era pra combinar com os olhos e o cabelo, e a pele muito branca. Usava uma camiseta dos Ramones. Andou pelas prateleiras cheias de discos, escutou alguns e me perguntou o que estava tocando. Eu disse que era John Coltrane. Ela disse, legal, e saiu. Deixou um rastro que me fez querer pular o balcão e correr atrás.

 

Ela voltou mais vezes. Muitas delas usando vestidos que pareciam fora de qualquer época, mas que estavam exatos na em que ela existia. É algum charme perigoso, que faz a gente grudar o olho e querer decorar a imagem até cansar. Queria ver ela na minha frente todos os dias de manhã e à noite. Ia sentir como se tudo valesse mais a pena.

 

Ela veio comprar discos de vinil. Saiu com uns cinco: Nick Drake, Stooges, Miles Davis, Curtis Mayfield e Big Star. Queria me enfiar no meio das faixas e ir com ela pra casa. Podia imaginar na minha frente o corpo dela dançando, inventando movimentos que não existem durante uma tarde inteira ao ouvir cada um deles, e alguma lágrima caindo por causa do disco do Nick Drake.

 

Quando ela não vem fico olhando pra porta feito um bobo. Às vezes me distraio e invento situações e diálogos que nunca irão acontecer. É estranho como tem horas que essa ilusão engana e tenho certeza que a próxima a abrir e entrar será ela. Nunca é, mas meu coração dispara mesmo assim. Certa vez, logo depois de eu ser enganado por uma dessas visões, começou a tocar “Tired Of Waiting For You” dos Kinks. Parece um aviso.

 

É difícil viver dentro de uma loja de discos quando se é apaixonado por música. É difícil de se viver dentro ou fora de qualquer lugar quando se é apaixonado pela menina mais bonita que a sua coragem já viu. Bonita o suficiente para transformar a sua coragem em uma covardia que tem medo de dizer e pelo menos arriscar viver alguma coisa real. As músicas se sucedem. Uma atrás da outra. E eu tenho vontade de fazer um monte de coisas pra ela: incendiar meus próprios ossos se fosse necessário só pra ela não passar frio (sim, porque está fazendo frio nessa época e aposto que ela sente muito), ficar acordado espantando os pesadelos para longe do corpo dela apenas para ela acordar de bom humor, adivinhar quando ela está com sede ou com fome, inventar um ritual pra roubar a dor e a tristeza e a confusão dela se isso lhe trouxesse algum alivio, mostrar pra ela meus filmes e discos e livros favoritos e compartilhar uma espécie de templo e linguagem só nossos e dizer coisas que ninguém poderia dizer... enfim, cuidar dela como não cuido nem mesmo de mim. Tudo porque ela não me dá preguiça de nada.

 

Ela ficou um tempo sem aparecer. Fiquei angustiado, andei por ai e por ali pra ver se a via. Mas hoje ela voltou. Estou com o pé quebrado, saio do balcão e dou uma volta pela loja pra ver se ela pergunta o que aconteceu. Ela não diz nada. Vou até a vitrola e troco o disco. Começa a tocar “Warm Love” do Van Morrison. Percebo que ela gosta. Se aproxima e pergunta o que é. Nem repara no meu pé. Nem liga pra mim, só pra música. Eu digo. Ela diz que é linda. Eu digo que é linda mesmo. Não estamos falando da mesma coisa.

 

Ela aparece novamente. Mais bonita do que nunca. A música toca alta. Eu tomo coragem e saio atrás depois que ela sai. Em algum lugar, mesmo longe, a música continua. Não posso alcançá-la. Ela tem asas. Eu ando de muleta.

 

Alê Duarte, 31, é traíra e montou o http://hajaparalelo.blogspot.com, de onde tira alguns textos pra colocar aqui. E vice-versa

GIBA, O PASTELEIRO

 

Já contei aqui sobre o mal-sucedido casamento judeu do Marc e também trouxe o desfecho trágico do flerte de Mauricio com a garota do bar Sabiá. Chegou a vez de falar sobre o Giba. Ou melhor, sobre o seu novo ofício. Acreditem ou não, estas histórias passam longe da ficção e têm o intuito de mostrar o lado mais humano destes talentosos escritores.

 

Saia de uma reunião marcada num horário bem próximo ao almoço. Um dos campi das instituições de ensino que atendo como assessor de imprensa fica na Galvão Bueno, o coração do tradicionalíssimo bairro da Liberdade. Indeciso diante de tantas opções gastronômicas, cedi ao cheiro de pastel da feira de quarta-feira, que acontece numa rua colada à universidade. Devido à profissão e ao local aonde estava, aguardava ser atendido por um japonês. Por este motivo, foi enorme a minha surpresa quando vi diante de meus olhos – que sofrem de hipermetropia, mas ainda são confiáveis – um rapaz que, além de não possuir origem oriental, tratava-se do mestre Giba, companheiro de blog, risadas, festas e cervejas.

 

Atônito, fiz o papel de repórter, que normalmente cabe a ele, e perguntei o que estava acontecendo. Contou-me que, há três semanas, fora escalado para fazer uma série de reportagens para um especial do Jornal da Tarde sobre os 100 Anos da Imigração Japonesa. Apaixonou-se pela história da região. Descobriu fotos antigas que comprovavam aquele bairro como campo de forca à época dos escravos, conheceu a emblemática Igreja de Santa Cruz e conversou com parentes dos passageiros do navio Kasato-Maru, que trouxe os primeiros imigrantes japoneses para o Brasil.

 

Depois de contatos tão calorosos com a vizinhança, decidiu que ali era o seu lugar. Entregou todas as suas matérias dentro do prazo e entrou com um pedido de afastamento. Não demorou a conseguir uma vaga de pasteleiro na feira, um dos locais mais agradáveis pelos quais havia passado. Quebrando a tradição, o dono da banca que o empregou disse a ele: “seus olhos não são fechados, mas nosso coração está aberto para você". Emocionado, Giba largava o jornalismo e entrava no mundo da fritura oriental.  

 

 

Giba, em seu novo ambiente de trabalho, anotando o próximo pedido

 

“Largar” não é a melhor expressão. “Adaptar” talvez seja mais correta. Isto porque Giba logo criou um diferencial em seu atendimento, que fez triplicar o número de pessoas que por lá circulavam semanalmente. Dentro de cada pastel que servia, ele colocava uma mensagem poética, um elogio, um galanteio. Só para as moças, claro. E elas ficavam fascinadas com os bilhetes que traziam passagens como “Confessa que tem saudade da minha falta de jeito”, “É preciso perder um amor para que alguém encontre”, “A bailarina embriagada caiu em si e partiu meu coração” e “Se precisasse, aprenderia a voar por ela”. As belas clientes nem se importavam com o cheiro e as manchas engorduradas. Com uma leve mordida espantavam o primeiro vapor. Afastavam um tomate aqui, desgrudavam um queijo ali e logo encontravam as mensagens, guardadas dentro da carteira, no bolso traseiro da calça jeans apertada, na alça do sutiã que brotava do decote sedutor.  

 

Com toda a sensibilidade que lhe é peculiar, Gilberto Amendola reinventou o biscoito da sorte. Atualmente, são inúmeras as mulheres que correm em direção a sua barraca em busca da pequena tira de papel. Confessou-me que a novidade já rendeu algumas conquistas e, ao mesmo tempo, certa ciumeira entre os outros atendentes. No fim das contas, acredita que está valendo a pena. Há tempos que não sorria com tanta facilidade. Amanhã é quarta-feira. Os jornais estarão nas bancas, mas Giba agora só se importa em acertar a temperatura do óleo e fazer ferver até o mais gélido coração feminino.

 

Fabio Chiorino, 26, é jornalista e escreve no Haja Saco às terças-feiras

JANEIRO

 

I

Ela se foi. Eu fiquei. O que passou, passou. Não quis me desfazer do lençol. É tudo uma besteira, é claro. A gente esquece rápido. A vida é assim à toa mesmo. Deve ser verão agora. Mas por aqui não tem batido sol.

 

II

Hoje acordei bem cedo pra fazer a barba. Fiquei um tempo olhando pro meu rosto. Às vezes se reconhecer é difícil. Cobri minha cara com espuma de barbear. Parecia que tinha enterrado o rosto na neve. Isso me trouxe lembranças melancólicas. De repente descobri que a lâmina de barbear tinha acabado. Não liguei. Estou me acostumando à frustração.

 

III

Pedi comida em casa. Tenho evitado sair. Tem me parecido que as pessoas são um excesso. As pessoas me dão a impressão de serem um grande insulto. Realmente não preciso disso. Mesmo sozinho sou tumulto.

 

IV

Passo cada vez mais tempo entre os livros. Ando numa fase “Biografias”. Li uma porção delas numa tacada só. Os mais variados tipos de gente. Não anda fácil ser eu.

 

V

Ela me mandou um e-mail. Disse que está voltando, desta vez pra ficar. Espero que esteja mesmo. Não sei pra onde isso tudo vai. Não fiquei chocado. Também não posso dizer que fiquei feliz. Esperar. Tudo se resume a um imenso exercício de paciência. Cultivar esta ausência absurda. A dor, quando bem maturada, tende a parecer de mentira.

 

VI

Parei todos os relógios da minha casa. Agora vivo numa espécie de nave atemporal. Como se pra mim o mundo andasse em outra velocidade. Não estava mais suportando a espera cravada nos ponteiros. Sentia que o mundo todo tinha mergulhado no fundo do mar.

 

VII

Parece que adormeci por uma vida toda. Outro e-mail. Disse que chega amanhã. Fiz questão de confirmar que todas as portas e janelas da minha casa estavam trancadas e silenciosas como uma promessa.

 

VIII

Hoje faz sol. Abri todas as portas e janelas da minha casa. Como alguém que espera entrar um milagre.

 

Mauricio Duarte dos Santos, 26, é jornalista e escreve no Haja Saco às segunda-feiras