O MUNDO É DOS NETS
Sempre acreditei que o futuro seria parecido – ou igual – ao melhor dos episódios dos Jetsons. Passadas duas décadas, ainda engatinho para aprender a mexer no meu PC corretamente. Os Jetsons, desenho da década de 60, mostrava máquinas fantásticas que faziam ovos fritos apenas com um pedido de voz ou uma empregada robô, além de um cão supersônico. Trânsito existia, mas de naves, sempre na porta de restaurantes bacanudos – normalmente lanchonetes espaciais, com garçonetes descoladas e modernosas de fato.
A voz, nos Jetsons, tinha papel fundamental. Era com ela que os participantes faziam a maioria das ordens de comando. Passados quase 50 anos (50!), os Jetsons continuam imbatíveis e a concepção de futuro deles quase perfeita. E o comando de voz é uma realidade. Veja só. Uma realidade de merda, mas uma realidade.
Na noite passada, pude comprovar o que o futuro tão presente em nossas vidas nos dispensa. Uma hora antes de Corinthians e Inter, final da Copa do Brasil, fui avisado que meu sinal da NET fora cortado. Avisado pela minha TV, que simplesmente saiu do ar. Como o mundo é dos NETs, meu Virtua se foi no pacote. Decidi, então, ligar para o famigerado 4004-7777. Qual não foi minha surpresa ao constatar que a diretoria de Marketing assistia não um, mas a todos os episódios dos Jetsons. Sim, porque a garota de recados Telesp hoje é um simpático bigodudo, que fala com você com a intimidade de um cunhado em festa infantil.
- Oi, tudo bem? Vejo que seu número está cadastrado em nosso sistema
E emenda: - Vejo também que sua região está com problemas de sinal. Ruim, não é?
É.
- E sentencia: eu tenho uma resposta para você: estamos corrigindo o problema e a previsão mais próxima para normalização está prevista para 6 horas! (voz otimista)
Seis horas???
Passaram-se 10 minutos. Disse a mim mesmo: empresa moderna, não faria isso, deve ser uma margem de erro. Liguei de novo:
- Oi, tudo bem? Vejo que seu número está cadastrado em nosso sistema
E debocha:
- Vejo também que você já tinha ligado antes!
Essa nem os Jetsons!
Marc Tawil tem 173 anos e para escrever às sextas tira leite de pedra
PLAC, PLIC, PLOC, PLUM, PLOFT, BOLINHA DE SABÃO
Nesta estranha circunstância em que me encontro, escrever é um exercício inútil. Já perdi qualquer esperança de encontrar um leitor ou algo parecido com um. Portanto, se continuo escrevendo é por força do hábito, por repetição, tédio e, principalmente, falta de talento para o silêncio. É... o silêncio só é bom quando o barulho está nos espreitando na próxima esquina. Agora, preciso afinar os ouvidos para capturar um torturante ‘ploft’, ‘ploft’ e ‘ploft’.
Não que seja de todo ruim. No atual estado das coisas, posso escrever o que bem entender, difamar os puros, santificar os podres e inventar um novo idioma – uma nova gramática cheia de regras complicadas e sem sentido. Posso escrever minha própria bíblia, fundar uma nova religião e exercer uma tirania sem resistência, uma revolução sem ‘contra-revolução’. Ou seria ‘contrarrevolução’? Quem se importa?
Isso começou na sexta-feira passada. Não dei muita relevância quando vi aquela bolha de sabão sobrevoando a guarita do zelador. Apenas resmunguei contra o pobre coitado e me mostrei preocupado com a segurança do meu condomínio. Depois, caminhando pelas calçadas de Perdizes, transpassei implacável outras bolhas de sabão. Estourei algumas. Sem dó – e sem qualquer informação que pudesse me transformar em um genocida.
Andava tão absorto com meu iPod (e bastante indignado por não gostar mais de nenhuma música que eu mesmo havia baixado) que não reparei no vazio da Cidade, não percebi que, por todos os caminhos, só era possível cruzar com bolhas de sabão. Se bem me lembro, cheguei a pensar que aquilo fosse alguma ação promocional em larga escala, uma babaquice publicitária.
Fiz sinal para o ônibus. O veículo parou. Subi sem dar bom dia. Não havia ninguém no busão. Usei meu Bilhete Único. Sentei no fundão e comecei a ler um livro. Só depois de uns dez minutos reparei nas bolhas de sabão ao meu redor. Acho que sentei sobre uma (mas foi sem querer). Senti um frio na barriga: “Quem está dirigindo essa porcaria?”
Desci sem me certificar se o motorista também era uma bolha de sabão (claro que era). Entrei no prédio do meu trabalho sem passar pela segurança, subi no elevador sozinho, apenas acompanhado por bolhas de sabão – estourei algumas só de sacanagem. Mas acho que a ficha só caiu quando adentrei ao escritório e vi meus colegas de trabalho... Não, não... não vi meus colegas de trabalho. A ficha caiu porque vi uma porção de bolhas de sabão sobrevoando o ambiente. Posso não ser o cara mais inteligente do mundo, mas já tinha visto bolhas de sabão suficientes para entender que agora aquilo era tudo o que existia.
Antes de qualquer consideração filosófica, tomei uma atitude belicosa. Fui na mesa do meu chefe e ploft; fui na mesa do meu diretor e ploft; fui no gabinete do presidente da minha companhia e ploft; fui no departamento de Recursos Humanos e ploft, ploft, ploft; fui na salinha da secretária gostosa, que nunca me deu bola e, com dor no coração, ploft; fui na máquina de café e ploft em alguns coleguinhas também. Confesso, estourei bolhas aleatórias.
Depois de muitos plofts, comecei a me questionar sobre o motivo de ser o único naquela cidade, país e, quem sabe, planeta que não havia me transformado em bolha de sabão. Foi aí que me senti infeliz, solitário e até desprestigiado. Afinal, as bolhas de sabão podem flutuar. São bailarinas do ar, fadas inacessíveis.
Assim, depois de uma semana andando a esmo, estourando bolhas de sabão e procurando pistas sobre o que teria acontecido, resolvi escrever esse texto. Se alguém de carne e osso (ou água e sabão) estiver lendo, por favor, me mande um sinal. Ploft.
*
A estrada se estreita de tal modo que só nos resta escolher uma bifurcação.
a partir daqui, só é possível caminhar sozinho
Sorte para todos nós
beijos
Giba
Gilberto Amendola, 33, é jornalista e escreve no Haja Saco às quintas-feiras
LIMBO
O escritor trabalha na hora negra. Ele não chama de hora negra à noite, mas sim o momento em que precisa viajar por todas as suas experiências, sejam elas reais ou imaginadas. É o momento de procura infinita, de busca de lugares que nem sempre existem, de personagens que fatalmente serão esquecidos e abandonados. Tudo isso ele chama de hora negra. Muitas vezes a hora negra não dura uma hora, noutras dura um dia inteiro.
Ele se levanta de sua mesa para colocar um disco. Começa a ouvir Nashvile Skyline de Bob Dylan e volta para a mesa. Ele evoca um caminho e rostos. Ele forma cores e os corpos que vestem esses rostos. Ele pensa e dispensa características, perfis, defeitos, personalidades e joga tudo em uma caldeira. Ele cozinha com sua mente cada personagem e cada nuance de um conto.
Ele caminha por uma rua imaginária encontrando fantasmas e pessoas de carne e osso. Mortos e vivos se misturam em sua história enquanto o disco toca. De uma música ele pensa em tirar uma idéia. De outra ele pensa em descartar uma antiga. E assim caminha por uma catedral mal ajambrada, falha em suas arestas e intenções, que se modifica com a velocidade de cada pensamento para se fixar quase que ao acaso em algum lugar improvável.
O escritor se levanta para mudar o disco e pegar uma bebida. No caminho ele encontra um de seus personagens. Um homem um tanto estranho que ainda não tem uma parte do cérebro. Falta um bom tanto da sua infância. Vários detalhes de sua adolescência ainda estão mal dispostos pela sua vida inacabada. Uma vida que talvez nunca termine.
Depois de se servir com um copo de vinho, o escritor dispensa sua personagem mais deprimente. Esse desesperado que clama pela sua vida, que pede para que tenha pelo menos uma chance de provar que tem algum valor. Mas um gole é suficiente para atirá-lo novamente no limbo com uma série de outros personagens rascunhados, mas nenhum com tanta certeza de que o tempo poderá acabar com ele quanto esse.
Na volta para sua mesa, o escritor dá de cara com a sua personagem favorita. Um tanto imaginada e um tanto real, ela é como uma heroína que embarcou em uma aventura errática por uma cidade em ruínas, e que se transformou no seu mais feroz fantasma. É ela que aparece se movendo em muitos dos seus sonhos, nem sempre de corpo presente, mas como um nome, como um cheiro, como uma falta em excesso. Nessas horas ele acorda afobado à procura de uma caneta, e quase sempre anota um verso.
Sua personagem, essa imagem que ele criou com medidas de amor e sofrimento, está presente em cada uma de suas frases. Ele trabalha e retrabalha nela, recriando, à medida que escreve, sempre a mesma pessoa, mesmo que não raro lhe dê nomes e formas diversas. Ela já foi uma estátua de pedra, já foi uma águia, já foi uma bruxa de contos infantis, e já foi uma ilha e um refugio em um poema antigo.
Quando o escritor se dá conta, é novamente sobre ela que ele está escrevendo. Sua personagem favorita, essa mulher um tanto real e um tanto fictícia que dessa vez assume a forma de uma névoa nas páginas que ele escreve.
É quando, sorrateiramente, como sempre, ele percebe que sempre falta uma parte nas suas histórias. É quando ele se depara com algum dilema, com algum fato a ser solucionado, e nota que lhe falta alguma experiência, talvez muitas experiências, para que ele possa dar fim àquilo tudo que começou. Uma onda de terror percorre seu corpo e mexe com cada um de seus nervos quando ele entende que sua existência ocorre em alguma esfera paralela, que seus anos não avançam e que uma espécie de redoma de vidro o prende dentro de um tempo e de um espaço como o em que ele mesmo prende os seus personagens. É quando ele se torna o ser desesperado, e o personagem inacabado que sempre é mandado para um limbo pelo homem que lhe escreve.
Alê Duarte, 32, é jornalista e escreve no Haja Saco às quartas-feiras
“Se quer seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas experiência, a que me induziram, alternadamente, séries de raciocínios e intuições”
Guimarães Rosa – abertura do conto Espelho, do livro Primeiras Estórias
TEMPOS MODERNOS
Hey there! m.eduarda is using Twitter.
Coloquei um brinquinho. Doeu. Mas toda mulher faz sacrifícios para ficar ainda mais bonita.
about 6 hours ago from web
Meu pai volta a trabalhar amanhã. Queria caber na mochila dele.
23h35 PM Jun 30th from web
Mãe, esquece o Hipoglós Amêndoas. Ele fede pra caramba...
13h25 PM Jun 30th from web
Não deu certo. Eles não gostaram nem um pouco.
07h02 PM Jun 30th from web
Eu ouvi dizer que uso muita fralda. Amanhã, vou fazer cocô na cama.
20h10 PM Jun 29th from web
Meus pais tiram várias fotos minhas. Eu sempre faço poses especiais, mas eles acham que são ótimos fotógrafos.
17h16 PM Jun 29th from web
Se eu me comportar, será que ganho? Vejam http://www.toymagazine.com.br/dvd-pequena-sereia-p-84.html?osCsid=q3eb4gqtht7ofc475pt74pm6m2
10h12 AM Jun 28th from web
Eu admito. Choro de fome, de cólica e de manha. O último é sempre o mais gostoso.
06h07 AM Jun 28th from web
Mamãe comprou um vestido novo para mim. É lindo, mas muito grande. Vou fazer força para crescer logo.
18h10 PM Jun 27th from web
Papai é engraçado. Fica dando socos no ar quando o time dele faz gol.
16h37 PM Jun 27th from web
Minha priminha Clara nasceu hoje! Como sou mais velha, vou ensinar a ela como estilizar um macacão.
21:38 PM Jun 26th from web
Eu odeio me trocar depois do banho. Tenho vontade de jogar o peixe-termômetro pela janela.
20:40 PM Jun 26th from web
Eu amo a hora do banho. O peixe-termômetro é puro charme.
20:00 PM Jun 26th from web
Achei um móbile de berço divino. Aqui http://www.alobebe.com.br/site/lojavirtual/produtos.asp?id=1164
14:55 PM Jun 26th from web
Daqui a pouco lá vou para mais uma mamada. Será que falta muito para introduzirem o Toddy?
12:45 PM Jun 26th from web
Difícil não é escrever em até 140 caracteres, mas sim controlar o mouse.
11:43 AM Jun 25th from web
Mamãe nem desconfia que criei um twitter.
8:05 AM Jun 25th from web
Fabio Chiorino, 27, é jornalista, juventino e escreve no Haja Saco às terças-feiras
Este texto faz parte da obra Haja Saco, o Livro. A Livraria Cultura colocou o livro à venda com preço promocional de R$ 28. Aqui: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=11026920&sid=01612510711616370708767911&k5=2AEEFD8B&uid=
A VISÃO
Pedro acordou sonhando. A visão: o pelicano fêmea abrigando o filhote faminto sob as asas estupidamente maiores do que seria verossímil imaginar. De repente, a ave começa a bicar violentamente a si mesma, arrancando suas penas até sangrar. Aproxima a região de seu próprio corpo que goteja sangue do bico do filhote. O filhote, então, no esforço de sua economia de ossos, ataca furiosamente a ferida da mãe e alimenta-se com seu sangue. A avidez saciada. O grotesco feito alegoria: o sangue de Cristo derramado para salvar a humanidade. O martírio.
Foi nesse estado de ânimo que Pedro cambaleou pela rua, inalando a poeira que se desprendia dos edifícios, tentando inutilmente decifrar o que significava aquilo tudo. Um momento de blecaute, um apagão. A visão. Não poderia precisar quanto tempo tudo durou. Apenas a boca ausente de saliva, a garganta arranhando de tão seca. Um padre não deveria desmaiar em pleno passeio público.
Um padre que ocultava um segredo: um filho. Durante o seminário havia tido um filho. Em alguma cidade medonha do interior de país cujo nome já não era capaz de pronunciar. Um descuido. Desapareceu da vida da mãe cujo rosto era agora um borrão em sua memória. Jamais havia visto a criança, que considerava uma provação divina contra o demônio. Não poderia, jamais, cair na tentação de ir ao socorro de seu próprio pecado. Não deveria encarar sua própria ignomínia. Apenas o abandono completo poderia levar à redenção. O filho era o diabo.
Um medo sem explicação que o acompanhava desde então. Calafrios, suores gelados percorrendo-lhe os ossos. Acordava no meio da noite, ensopado, o estômago contraindo-se em espasmos violentos. Ânsias noturnas. Dores insuportáveis nas mãos, nos dedos. O hábito de portas e janelas trancadas. As missas rezadas com apuro e olhos de desconfiança. O filho, o mal-encarnado, poderia estar entre os fiéis orando com suas vozes de entre dentes. Um cavalo de Deus em constante estado de alerta.
Foi ajudado pelos transeuntes, que o levantaram, trouxeram água com açúcar, sal, boa vontade entre os homens. Ele retrucou que estava bem, não havia de ser nada, apenas um mal súbito, uma indisposição passageira, sem importância. Continuou pelas ruas, de mãos dadas com o pavor, dobrando esquinas intermináveis, cruzando com almas inacessíveis. Apertava o terço no bolso da calça. Uma armadura dolorida. A visão embotando seus olhos.
O trajeto não importava mais. Andava a esmo. Como se qualquer ponto a que chegasse fosse o fim, ou o começo. O filho obscuro se escondia atrás dos postes, corria elétrico pelos fios telegráficos, acomodava-se em verdes bancos de praças, bebia na infinidade de bares de uma cidade pequena, minúscula, manuelina. A fé cega. A confiança de prosseguir contra o que é escuro. Lutar, desvencilhar-se da sombra. A visão lancinante tomando conta de seus músculos, fragilizando o corpo santificado pelo verbo feito carne. Aos poucos, tornava-se um ser destroçado, uma ruína.
Um homem o seguia. Usava um incompreensível capote negro em pleno calor de fevereiro. Largo demais, parecia feito de penas, ombreiras enormes como asas sobressalentes. Tinha uma maneira arqueada de andar. Modos arqueados de um pelicano. Mesmo sem enxergar, Pedro intuiu o bico no rosto do homem. Uma papada como um saco dependurado no pescoço. Pedro nem sequer olhou para trás. Apenas diminuiu o passo, contrariando o reflexo natural de acelerar, dado o medo que lentamente se apossava de seu corpo e de seu espírito. Andava tão devagar que dava a impressão de estar parado.
Não ousou querer entender a horrenda figura em seu encalço. Imaginou somente os olhos transfigurados de um filho. A vitamina vermelha do sangue inocente. E compreendeu que dali em diante sua vida estaria por um fio.
Mauricio Duarte dos Santos, 27, é jornalista e escreve no Haja Saco às segundas-feiras
DADO PARA VOCÊ (Jacko rest in peace)
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http://www.goear.com/listen/f740f96/A-Fazenda-
Marc Tawil tem 173 anos e para gravar às sextas tira leite de pedra
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