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O GARÇOM QUE ACREDITAVA EM NÓS DOIS

Olha só a cara do nosso garçom. Ele deve achar que a gente acertou os ponteiros e resolveu tentar mais uma vez. Se ele te trouxer, como cortesia de boas-vindas, aquela caipirinha de frutas vermelhas que você sempre pedia quando ainda éramos um casal, por favor, aceite. Seja simpática. Ele não tem culpa do nosso aborrecimento.

Eu quero um tinto. Não uma tacinha. Pode descer a garrafa. Ué, preocupada com o quê? Eu não dirijo. Eu não sei dirigir. Lembra como você ficava incomodada com isso? Era você quem vivia me buscando em casa. No começo, você ria e dizia que eu era a “mulher da relação”, mas depois você admitiu que sentia falta de um certo conforto. Tentou até me ensinar a guiar. Foi patético. Eu bati o seu carro em um poste – e quase matei nós dois.

Eu sabia que ele iria trazer a sua caipirinha. Eu gosto desse cara. Sabe que ele foi o primeiro a descobrir que você tinha me deixado? Ele leu na minha cara – e no jeito em que encostei a barriga no balcão e pedi um chope escuro. Ele me disse: “E aí, Lúcio, cadê a Bel? Ela não vem hoje?” Fiquei quieto. Ele apertou meu ombro e me trouxe uma porção de bolinhos de arroz.

Olha agora a alegria dele. Lembra quando a gente disse que ele seria padrinho do nosso casamento? Acho que ele acreditou. Acho que ele acreditava na gente. Éramos o casal mais promissor desse bar. Saúde! Não quer brindar?

Qual é o problema se o vinho deixa minha língua roxa ou meus dentes um pouco mais escuros? O bem que ele me faz compensa qualquer contratempo ridículo. Faz tempo que o vinho é a minha religião...

De qualquer maneira, fiquei surpreso que você tenha aceitado meu convite. Seu namorado foi viajar... Ah, ele sabe que você está aqui! Posso bater palmas? Vocês são muito sofisticados. O que me deixa esperançoso em relação aos discos de jazz que te dei no nosso último Dia dos Namorados. Ele não quebrou nenhum? Ele também gosta de Chet Baker? Canta My Funny Valentine no seu ouvido? Jura?

Uma noite, nosso garçom me disse que achava seu namorado sem sal. Sim, sim, você é assunto freqüente nessa mesa. Mas ele nunca falou mal de você. Aliás, se trago uma garota aqui, ele fica magoado. Acho que só consegue me imaginar ao seu lado. Antigamente, eu também tinha esse tipo de imaginação.

Como? Com quem eu ando saindo? Interessa? Deixa eu dar um gole dessa caipirinha, vai? Deliciosa. Não você. A caipirinha. Brincadeira. Ah, quer mudar de assunto? Tem medo de alguma recaída?

Sério que você também entrou nessa de ridicularizar o padre Adelir? Só porque ele decidiu voar em balões de gás? E daí que ele não sabia usar o tal do GPS? Você sabe? Eu não sei. Pra viver não é preciso de GPS. O padre Adelir é nosso Quixote. Merece meu respeito. Mais do que isso, Adelir é meu herói.

Tem uma coisa séria pra me contar? Lá vem bomba, né? (... ) Quanto tempo? Três meses? É... Eu tô legal. Esse vinho é ótimo. Tomamos um desse em Buenos Aires. Eu estou te escutando. Fala. Se for menina...

Não. Esse era o nome da nossa... Têm tantos por aí. Não acha crueldade? Por favor, me traz outra garrafa de tinto. Eu sei que essa ainda está pela metade, mas quero outra só pra garantir. Mas olha... Clarinha era pra ser a minha filha... Nossa filha. Não é justo. Eu faço drama? Desculpe. Sempre foi meu jeito. Você já se esqueceu do meu jeito, né?

Você acha que eu vou chorar. Talvez. Mas não na sua frente. Olha lá. Lá no fundo do bar, perto do balcão. É o nosso garçom. Triste. Quase chorando. Certeza que ele ouviu nossa conversa. Sabe de uma coisa? Acho que gosto mais dele do que de você. Agora, me faz um último favor, se por acaso nascer menino, pode chamar de Ailton. Sim, o nome do nosso garçom. Não, não precisa deixar dinheiro nenhum. Eu pago, meu amor. Escapou...

A conta, por favor.

Gilberto Amendola, 32, é jornalista e escreve no Haja Saco às quintas-feiras

DIÁLOGOS PRA DESENHAR

1.
“Você pensa em mim?”
...
“Ow, você pensa em mim?”
...
“Hey, te fiz uma pergunta...”
“Ah, desculpa, não ouvi, tava aqui distraído pensando em você”

2.
“Esqueci de tomar a pílula!”
“Pílula? Não né, a pírula”
“Não, é pílula sim”
“Não é, tenho certeza, é pírula que se fala”
“O que? Será? Tem razão, é pírula mesmo?”
“É sim, pode confiar , é PI-RÚ-LA, e não pílula”
“Bom, então tá, esqueci de tomar a pírula”

3.
“Tem músicas que eu escuto e imagino a sua cara”
“Ah é? Que músicas?
“Não sei, são músicas de lugares que provavelmente você nunca esteve”
“Então como você pode imaginar a minha cara?”
“É porque você tá em todo lugar que eu estou”

4.
“Em informática é fácil resolver as coisas, basta começar de novo”
“Queria que fosse assim com gente também”
“É, mas você ia começar tudo de novo, desde pequeno?”
“Ia sim”
“E pra mudar o que?”
“Pra te conhecer antes”

5.
"Você tá vendo o que eu tô vendo?"
"Errr...não, você tá olhando pra mim..."
"Pois é, é por isso mesmo que a gente nunca vai se entender"

6.
"Que cara é essa? Triste?"
"Preocupado"
"Por quê?"
"É que quando pequeno eu tinha uma tartaruguinha. Eu colocava ela de ponta cabeça e girava, e também pisava no casco, até que um dia ela morreu"
"Tadinha, é isso que te preocupa?"
"Não, tem mais. Também tive um aquário e todos os peixes morreram porque eu dava muita comida. E também um pintinho, deve ter morrido por excesso de carinho"
"Ah, mas tudo isso já faz bastante tempo né, não tem que se preocupar agora"
"Não, tenho sim. É que se você quisesse correr o risco, é de você que eu quero cuidar agora"

7.
"Mas me conta, você foi promovido?"
"Sim"
"E vai trabalhar pra que agora?"
"Pelo seu amor"

8.
“Nos últimos tempos nada deu muito certo”
“Ah, mas normal, é a vida”
“Pois é, mas a minha tá acabando comigo”

9.
“Você desistiu de mim, mas por quê?
“Quer saber mesmo?”
“Sim, claro, você dizia que gostava de mim”
“E gostava mesmo, acho que ainda gosto”
“Então por quê?”
“Tive que escolher. Desisti de você pra não desistir de mim”

Ps: o número 2 é real, e copiado de um antigo blog de um amigo.

Alê Duarte, 31, é traíra e montou o http://hajaparalelo.blogspot.com, de onde tira alguns textos pra colocar aqui. E vice-versa

A MURALHA

 

No primeiro mês de 1997, Fred decide entrar numa sala de bate-papo virtual. Nunca poderia imaginar que do outro lado estaria a mulher que mudaria definitivamente sua vida. Naquele tempo, com 17 anos, era freqüentador contumaz de chats. Não tinha intenções maiores. Integrava uma banda de rock, tinha uma namorada e cabelos compridos. Teclava para se divertir e nada mais. A quilômetros de distância, mais precisamente em Brasília, Laura, uma ruiva de 19 anos, ainda descobria a internet e acreditava que só havia doidos ou solitários do outro lado do monitor. Contundo, se divertia com aquilo, até altas horas da madrugada.

 

Não se sabe quem puxou conversa. Dizem as convenções que foi ele, que começou com uma conversa informal, mas não demorou a pedir uma foto. Lalá - era este seu nickname -, distraída, respondia com frases curtas e lacônicas. Hesitou por alguns momentos, mas enviou seu retrato. Fred ficou alguns minutos em silêncio, provocando em Laura um medo tolo de rejeição. O silêncio era, na verdade, um sinal de admiração. Fred gostou do que viu, mas sempre lhe faltavam as palavras corretas para se expressar. Até tentou digitar algumas frase soltas, mas tornou-se repetitivo e previsível. Laura achou graça daquele embaraço e, instantaneamente, simpatizou com aquela companhia.

 

Aquele dia acabou, mas a amizade, com requintes de flertes, estava em seu início. Trocaram e-mails, conversaram noites seguidas e ganharam intimidade. Após poucos meses, já lamentavam a distância que os separava. Tinham planos, meio mochos, de se conhecerem pessoalmente.

 

Deram prosseguimento às suas vidas, mas eram incapazes de esquecer o efeito que a ausência corporal provocava naquela relação. Em 1999, Laura enfrentou um grave problema de saúde. Nenhum dos amigos dela veio a saber o que estava acontecendo. Fred sabia e não a abandonou. Lalá, deprimida, tentou provocar uma ruptura, mas Fred não permitiu. Mesmo sem receber respostas, ele lhe escrevia diariamente. Sabia que não valia a pena desistir; nunca duvidou da importância que aquela garota adquirira em seus pensamentos.

 

Laura superou aquele momento difícil, até hoje indecifrável, e voltou a viver, de maneira mais intensa possível. Os calendários já apontavam o ano de 2000, quando, em abril, veio a notícia: Laura estava grávida. Fred já sabia, através de conversas anteriores, deste desejo materno, mas não deixou de se impressionar com a novidade. Naqueles dias que se passaram, veio uma idéia louca na cabeça da Fred. Pensou que talvez curtisse ser o pai daquela criança. A idéia passou; Laura não. Durante a gravidez, Fred escrevia todos os dias e se animava com a iminência daquela cria. Ainda naquele mesmo ano, Laura esteve em Campinas, cidade onde passou uma semana, mas sem coragem de ir até São Paulo pra conhecer Fred. Uma mistura de ansiedade com timidez que lhe embrulhava o estômago de forma mais avassaladora do que a própria gestação.

 

Nasceu Francisco, em janeiro de 2001, mesmo ano em que Fred terminou seu então duradouro namoro. Ambos discutiam o reflexo das mudanças em suas vidas e não conseguiam mais disfarçar a vontade de, enfim, se conhecerem cara a cara. Mas muitas luas trocariam de formato no céu até que este dia chegasse.

 

E foi novamente a cidade de Campinas que serviu de palco para o novo episódio daquela história. Após dois anos de banho-maria, chegou o dia 10 de janeiro de 2004 e, com ele, a confirmação oficial do encontro. Encontraram-se na rodoviária, completamente desconcertados. Mas aquela paixão, que ousou durante todo aquele tempo se esconder, veio à tona. Foram dias de arrebatamento emocional. Fred e Laura não se desgrudavam, descobriram as delícias do amor, da companhia constante. Sorriam sem motivo e, ao mesmo tempo, temiam o futuro.

 

Fred precisava voltar para São Paulo; Laura morava agora em São Luís. Novamente a geografia conspirava contra. Separaram-se prometendo um novo encontro, mas dissimularam com pouca habilidade uma independência inexistente. Desta vez, a separação não durou tanto tempo. Reencontraram-se em julho, em Brasília, e viveram a lua-de-mel que se promete em todo romance de folhetim.

 

O sentimento ganhou força, e a possibilidade de uma nova ruptura tornou-se insuportável. Fred tentava não lutar contra o inevitável, enquanto Laura, melancólica, sonhava com um final feliz que nem ela cria de maneira convincente. Voltaram a tomar caminhos distintos. A cada nova conversa, fixava-se uma tristeza repleta de razões. Não sabiam como resolver tal dilema, mas estavam cônscios de que ainda precisariam um do outro.

 

Na última vez que se viram, Fred flagrou Laura, com os olhos marejados, olhando fixamente para um mapa velho. Ele não disse nada. Apenas a abraçou e voltaram para a cama. Enquanto observava Laura ressonando ao seu lado, Fred relembrou fases de sua ainda curta existência. Foi quando percebeu que não tinha a menor idéia do que lhe estaria reservado a partir daquele dia. Mirando sombras provocadas pela luminária, adormeceu com a descoberta de sonhos dolorosos, impossíveis de serem evitados.

 

Fabio Chiorino, 26, é jornalista e escreve no Haja Saco às terças-feiras

How does it feel
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

Bob Dylan

 

MINHA VERSÃO  

 

minha versão de você

pode ser um incômodo

uma mancha negra

no seu calendário de cores

uma sombra veloz por sobre

suas brincadeiras de amores

 

mas não me desculpe

não me sinto mal

talvez eu só tenha

mesmo a te oferecer

este punhado de sal

 

mas meu amor, não se

deslumbre tão fácil

a vida é uma carcaça

de ossos enferrujada

uma velha dama de

companhia recalcada

 

se agora você leva

seus cruéis olhos verdes

pra  passear em violentos

cavalos dourados

e flutua tão facilmente

acima da atenção boquiaberta

de toda uma nação

de rostos indigentes

 

e se sua enorme pretensão

em parecer sempre disponível

espalha sua simpatia mentirosa

por todos os edifícios da cidade

e faz parecer que em nada disso

existe sequer uma gota de maldade

 

e se você faz questão

de ser tão delicada

com esse jeito

particularmente infantil

de esconder seu medo

de que a bolha estoure

vazando todos os seus

enganosos segredos

 

e se hoje ainda uma nuvem

imensa de aplausos insiste em

seguir pra onde seu dedo aponta

e uma legião de homens armados

assoma à sua porta prestando contas

 

você vai entender que nada disso

vale no final da estrada

tome cuidado com o ídolo

feito de delírio e éter

que você leva nas mãos

ele é frágil e efêmero

e não suportará o inevitável

impacto com o chão

 

é necessário entender

o perigo de todo

este falso brilho

que você carrega

pois o excesso

de luz também cega

 

quero ouvir o que você

vai dizer quando a banda

parar de tocar sem aviso

quando chegar a hora

em que no peito não haverá

mais nenhuma bandeira

quando de nada servirão

os 32 dentes encavalados

do seu último sorriso

 

sendo que você

nem faz idéia que

antes, meu bem, muito

antes de saber o que lhe

adoça o gosto,

é preciso afundar

a cara inteira

no esgoto

 

Mauricio Duarte dos Santos, 26, é jornalista e escreve no Haja Saco às segunda-feiras

DA ZONA LOST PARA O MUNDO

Nascida na Zona Lost, amo o metrô como os que lá moram, na Zona Leste, também amam os seus possantes: calotas prateadas, vidros filmados, aparelhos de som superpotentes. Além do "martelinho de ouro" - nunca vi lugar, como vejo no Tatuapé, com tantas lojas oferecendo esse tipo de coisa. Serviço, inclusive, que não tenho idéia de como funciona. O martelinho de ouro seria, "no caso", um martelinho dourado que endireita partes amassadas no carro? Sempre imagino alguém que minuciosamente dá batidinhas delicadas no capô. Minha mãe disse que tem a ver com o brilho. Vai saber, me recuso a dar um Google.

Dia desses, uma amiga da época da escola, e não do colégio, me disse que um amigo nosso virou dono de uma dessas lojas. Será que é complexo pelo nome do bairro? Essa coisa de "tatu a pé", de andar a pé, de repente causa um constrangimento nos que aqui moram. Em mim não, por isso, prefiro mesmo o meu veículo de assentos laranja e que só anda reto. Às vezes, ele é extremamente cheio, a ponto de "levantou o pé, perdeu lugar". Sim, o pé, se sai do chão, corre o risco de não voltar. Tem que ficar no ar, ou sobre outro pé. Tem jeito, não. Às vezes, por outro lado, o metrô é tão vazio quanto um trem europeu. E nosso trem é "made in Espanha", não? Deve ter a ver. Outro dia, numa festa, uma jornalista espanhola e simpática disse que sentiu um dejà vu quando pisou num trem paulistano. Achei confortável pensar que se um dia eu mudasse pra Espanha - apesar de não pensar em mudar pra Espanha -, sentiria um dejà vu, assim como a moça jornalista e simpática.

Da Zona Lost para o mundo, é de metrô que vou continuar indo. Já vem lustrado, tem cadeiras laranja e, às vezes, basta tirar o pé do chão pra se sentir se não nas nuvens, presa numa toca de coelho de Alice no País das Maravilhas.

Luara Calvi Anic, 24, é jornalista e nunca se perdeu na Zona Lost. Mantém o blog A Parede Laranja (http://aparedelaranja.blogspot.com)

Decidi postar um texto de outrem. Talvez pelo texto ser bom demais, talvez porque identifique o momento pelo qual estou passando. Não sei ao certo. Mas creio que cairá bem pra muita gente. Senhoras e senhores, José Roberto Torero

VENCER, PERDER, VENCER ...

Dizem que, durante os grandes desfiles, alguém era encarregado de ir ao lado do imperador romano cochichando em seu ouvido: "Memento mori, memento mori...".

Mal traduzindo, seria algo como "Lembra-te que vais morrer, lembra-te que vais morrer...". Isso serviria para que o soberano, que estava sendo aclamado pela multidão, lembrasse que era um ser falível e imperfeito, um reles mortal.

Se um chato é aquele que estraga um bom momento, o mementomorista era o sujeito mais chato do mundo, pois não deve haver instante de maior glória do que aquele em que se é aplaudido por todo um povo, por toda uma torcida.

Houvesse ainda o emprego deste chato profissional, hoje ele estaria ao lado dos campeões estaduais dizendo aos seus ouvidos: "Memento amittere, memento amittere...", ou seja, "Lembra-te que vais perder, lembra-te que vais perder...".

A verdade é que, depois de uma grande conquista, nem pensamos que sofreremos derrotas daqui a pouco. Os torcedores, os jogadores e os técnicos do time vencedor julgam-se imbatíveis. Vamos lá, confesse, ex-campeã leitora e ex-conquistador leitor, depois de seus últimos títulos, vocês pensavam que seus times eram os maiorais, que seu destino era a glória. Eu, pelo menos, pensei. E há outros exemplos.

Os são-paulinos, depois de conquistarem o bicampeonato brasileiro, estufavam o peito e julgavam que seu time era tão organizado que se tornara invencível. Mas perderam o Paulista. Os santistas, depois de vencerem o São Caetano na final do Estadual do ano passado, julgavam-se predestinados colecionadores de faixas de campeão. Mas nem chegaram ao quadrangular deste ano.

Os atleticanos mineiros nunca poderiam imaginar que, depois de golearem o Cruzeiro por 4 a 0 no primeiro jogo da final do ano passado, seriam derrotados por 5 a 0 agora.

Outros atleticanos, os paranaenses, venceram o Coritiba na final de 2005 e devem ter imaginado que vencer os coxas era sua sina. Pois em 2008 levaram o troco.

Em 2006, o Colo Colo foi campeão baiano, e seus fãs devem ter planejado fazer uma grande sala para os troféus que viriam. Mas no ano seguinte o time foi décimo, quase sendo rebaixado, e agora conseguiu um mediano sexto lugar entre 12 times.

A Chapecoense conquistou o campeonato de Santa Catarina em 2007 e deve ter imaginado que finalmente tornara-se um dos grandes clubes do Estado. Mas em 2008 acabou num modesto oitavo lugar.

Depois de um belo bicampeonato alagoano, o Coruripe dava toda pinta de que iria acabar de vez com a hegemonia dos sigláticos CSA, CRB e ASA. Mas neste ano ficou apenas em sexto lugar entre dez clubes.

A glória vem, a glória vai. A glória vai e vem. E volta. Como voltou ao Coritiba depois de quatro anos, como voltou ao CSA depois de nove anos, como voltou ao Palmeiras depois de mais de uma década.

Muitos comparam a vida com uma estrada, mas uma montanha-russa seria uma metáfora mais exata. Aliás, isso é um alento aos derrotados. Algum dia eles voltarão a vencer. Mesmo o Botafogo.

E depois voltarão a perder. Depois a vencer. Perder. Vencer. Etc...

Marc Tawil, 34, é um exibicionista e escreve no Haja Saco às sextas-feiras

POEMA-COBERTOR

Nessa manhã fria,
escrevi um poema-cobertor
feito de lã
com versos quentes
e enrolados.

Um poema para me proteger
da pneumonia,
da gripe, da sinusite e da solidão.

Um poema-aspirina
pra me tirar da cama.
Vitamina C, suco de laranja.

Um poema-despertador
pra ver se você acorda
de bom humor.

Na minha cabeça
esse é um poema-café quente
madrugador
trabalhador em ônibus lotado.

Um poema barato.

Um poema para bater o ponto do seu coração
para não faltar, não falhar
e não pedir demissão.

Escrevi pra você
pra você picar
bem picadinho
juntar
bem juntinho
e fazer uma fogueirinha.

Queimar, aquecer
e esquecer. (queimar, aquecer, esquecer, queimar...)

Fiz um poema
à toa
- como sempre.

Gilberto Amendola, 32, é jornalista e escreve no Haja Saco às quintas-feiras

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